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Por que o bullying ainda é tão difícil de combater nas escolas?
Principais pontos
- Um em cada três estudantes sofre bullying mensalmente no mundo, segundo a Unesco, agência da ONU dedicada à educação. No Dia Internacional de Combate à Violência Escolar, ela apresenta diretrizes sobre saúde mental e segurança digital.
- No Brasil, 71,7% dos gestores escolares relatam dificuldades para discutir violências, entre elas racismo e capacitismo, aponta a Fundação Carlos Chagas.
- Guia do Ministério da Educação mostra como identificar sinais de sofrimento, interromper agressões e acompanhar casos para evitar novos episódios.

No Dia Internacional de Combate à Violência Escolar, Unesco apresenta diretrizes para prevenir o bullying, como criar canais seguros de denúncia; guia do Ministério da Educação orienta como acolher vítimas e evitar novas agressões.
Um em cada três estudantes sofre bullying mensalmente no mundo, segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Nesta quinta-feira, 5 de novembro, Dia Internacional contra a Violência e o Bullying na Escola, a agência da ONU apresenta dois documentos com diretrizes para ajudar professores e sistemas de ensino a proteger crianças e adolescentes, com atenção à saúde mental e à segurança digital.
O bullying envolve agressões intencionais e repetitivas, geralmente marcadas por desequilíbrio de poder. Pode incluir ameaças, humilhações, apelidos ofensivos, divulgação de boatos e exclusão deliberada. Nem sempre crianças e adolescentes relatam espontaneamente o que acontece.
O tema da campanha deste ano, "Cada estudante seguro e bem: das promessas à prática", destaca um dos principais obstáculos ao combate do bullying: a distância entre as políticas de prevenção e o que acontece no cotidiano escolar. As agressões podem ser confundidas com brincadeiras, enquanto o medo de represálias e a falta de canais confiáveis de denúncia dificultam a identificação dos casos. A Unesco também identifica a necessidade de preparar os professores, acompanhar os episódios de violência e manter políticas permanentes de prevenção, em vez de agir apenas quando surgem denúncias.
O problema também ultrapassa os limites da escola. Ameaças, humilhações e exclusões podem continuar fora do horário das aulas, em grupos de mensagens e redes sociais, longe dos olhos de professores e gestores. Mesmo quando ocorrem fora do ambiente escolar, essas agressões afetam as relações entre os estudantes e sua segurança dentro da instituição.
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A agência da ONU alerta que o enfrentamento do cyberbullying não pode depender apenas das escolas, pois envolve ambientes digitais sobre os quais elas não têm controle direto. Por isso, defende a atuação conjunta de famílias, serviços de proteção, autoridades públicas e empresas de tecnologia. Segundo a organização, aproximadamente um em cada dez estudantes no mundo já sofreu cyberbullying.
A Unesco aponta, porém, que é possível ter resultados mais efetivos no combate ao problema. Um levantamento com dados de 144 países e territórios identificou redução do bullying em quase metade das nações que fazem o acompanhamento do problema ao longo dos anos. Entre os fatores associados aos resultados estão uma melhor preparação dos professores, o monitoramento das agressões e a adoção de políticas permanentes de prevenção.
O que a Unesco recomenda para combater o bullying?
A organização apresentou em Paris, nesta quinta-feira (5), dois documentos. O Teaching with Care (Ensinar com Cuidado), elaborado em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), orienta professores a reconhecer sinais de sofrimento emocional, fortalecer relações de confiança e encaminhar estudantes que precisam de apoio especializado.
O guia detalha sinais de sofrimento que os docentes devem observar. Em crianças de 7 a 12 anos, estão entre eles isolamento, conflitos frequentes com colegas e dificuldade de concentração. Entre adolescentes, a Unesco destaca mudanças bruscas no grupo de amigos, faltas à escola e alterações no comportamento nas redes sociais. Esses sinais não comprovam que o estudante esteja sofrendo bullying, mas merecem atenção quando persistem ou representam uma mudança acentuada de comportamento.
Ao identificar uma situação preocupante, de acordo com o documento, o professor deve conversar com o estudante em um ambiente reservado, ouvi-lo sem pressioná-lo a contar detalhes e procurar os profissionais responsáveis pelo acolhimento na escola. O guia da Unesco recomenda que as instituições tenham previamente identificados os serviços de saúde e proteção à infância disponíveis, com procedimentos claros para encaminhar os casos que exigem atendimento especializado.
O segundo documento apresentado pela Unesco é Connected and Safe (Conectados e Seguros), que trata da violência digital e propõe medidas de proteção contra agressões praticadas por meio de celulares, redes sociais e outras tecnologias.
Entre as medidas propostas estão a criação de canais seguros e sigilosos de denúncia — como formulários on-line, linhas telefônicas e profissionais da escola preparados para receber relatos —, além da capacitação de professores para reconhecer agressões digitais, identificar conteúdos manipulados e saber quando encaminhar os casos a serviços especializados.
A Unesco também alerta para o uso de inteligência artificial na criação de imagens íntimas falsas de estudantes e recomenda procedimentos específicos para enfrentar esse tipo de violência. O guia ressalta que a proteção dos alunos depende também da atuação das plataformas digitais, das empresas de tecnologia e dos órgãos responsáveis por sua regulamentação.
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Qual é a situação nas escolas brasileiras?
Uma pesquisa da Fundação Carlos Chagas (FCC), realizada em parceria com o Ministério da Educação (MEC) e divulgada em maio deste ano, revelou que 71,7% dos gestores entrevistados enfrentam dificuldades para discutir violências como bullying, racismo e capacitismo. O levantamento ouviu 136 profissionais de 105 escolas públicas de dez estados. Entre as instituições participantes, 54,8% nunca tinham realizado um diagnóstico estruturado do ambiente escolar.
Já a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2024, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), identificou que 39,8% dos adolescentes sofreram bullying nos 30 dias anteriores ao levantamento, enquanto 27,2% relataram episódios recorrentes.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, por sua vez, contabilizou 4.549 ocorrências policiais de bullying em 2025, aumento de 68,2% em relação ao ano anterior. A elevação pode estar relacionada, em parte, à criminalização dessas práticas, em janeiro de 2024, que ampliou as possibilidades de registro.
O que fazer quando o bullying é identificado?
O MEC publicou, em outubro de 2025, o Guia Rápido sobre como agir em casos de bullying e cyberbullying na escola. Organizado em dez passos, o documento orienta professores e gestores sobre como agir diante das agressões.
As principais recomendações são:
- Interromper a agressão. A prioridade é garantir a segurança do estudante, sem expô-lo a novos constrangimentos.
- Acolher a vítima. Ouvir o relato sem minimizar o sofrimento nem responsabilizar quem sofreu a violência.
- Registrar o episódio. Documentar o ocorrido e preservar mensagens, imagens e outras evidências, especialmente em casos de cyberbullying.
- Envolver as famílias. Comunicar os responsáveis e definir medidas de proteção.
- Acompanhar o caso. Verificar se as agressões cessaram e se o estudante voltou a se sentir seguro.
O guia também recomenda ações educativas e restaurativas, além do encaminhamento dos casos mais graves à rede de proteção à criança e ao adolescente.
E quando a escola não resolve?
Se as agressões continuarem, a família deve solicitar à direção informações sobre as providências adotadas, preferencialmente por escrito, e manter registros dos episódios.
Quando não houver resposta adequada, é possível procurar a secretaria de educação responsável, o Conselho Tutelar ou os órgãos de proteção competentes. Ameaças e agressões físicas também podem exigir registro policial.
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Desde janeiro de 2024, a Lei 14.811 tipifica bullying e cyberbullying como crimes. A legislação prevê multa para o bullying, quando a conduta não constituir crime mais grave, e reclusão de dois a quatro anos, além de multa, para o cyberbullying. Quando os envolvidos são menores de 18 anos, aplicam-se as regras do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Além das sanções previstas na legislação penal, escolas podem ser responsabilizadas civilmente quando deixam de adotar medidas para proteger estudantes contra agressões recorrentes. Em janeiro de 2025, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) manteve a condenação de uma escola particular a indenizar um estudante que sofreu bullying aos 12 anos. O menino foi alvo de insultos preconceituosos e agressões físicas repetidas. Apesar das reclamações feitas pela mãe à coordenação, a violência continuou. O estudante desenvolveu depressão e ansiedade, precisou de tratamento psicológico e psiquiátrico e acabou transferido para outra escola.
A instituição foi condenada a pagar R$ 10 mil por danos morais e R$ 7.012,09 por despesas decorrentes do caso, incluindo valores relacionados à rescisão do contrato escolar. Os valores não correspondem à multa criminal prevista na Lei 14.811/2024, mas a uma reparação civil pelos prejuízos sofridos pelo aluno e pela falha da escola em protegê-lo.
O Disque 100 recebe denúncias de violações dos direitos de crianças e adolescentes. Para situações de violência digital, a SaferNet Brasil oferece orientações e canais de denúncia.
Crédito da foto: Depositphotos
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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