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El Niño se fortalece e aumenta riscos à saúde no Brasil e no mundo
Principais pontos
• Fenômeno deve se intensificar até o fim de 2026, elevando incidência de males associados a calor extremo, secas, incêndios, chuvas intensas e inundações.
• OMS alerta para doenças transmitidas por mosquitos e pela água, problemas respiratórios, desnutrição e agravamento de enfermidades crônicas, além de impactos nos serviços de saúde.
• No Brasil, Norte e Amazônia podem enfrentar mais calor, seca e incêndios, enquanto partes do Sul estão sujeitas a chuvas acima da média, inundações e deslizamentos.

Os efeitos do super El Niño já estão em curso e se intensificam rapidamente, aumentando a preocupação com os impactos do fenômeno sobre a saúde no Brasil e em outras partes do mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou nesta terça-feira, 22, para riscos que incluem calor extremo, doenças transmitidas por mosquitos e pela água, problemas respiratórios e desnutrição.
“El Niño representa uma grande ameaça à saúde pública”, afirmou Teresa Zakaria, chefe da Unidade de Redução de Riscos de Desastres, Operações Humanitárias e Mudanças Climáticas da OMS, durante entrevista coletiva em Genebra, reporta a AFP. “Esperamos ver repercussões na saúde em todo o mundo.”
O fenômeno ocorre quando as águas superficiais do centro e leste do Oceano Pacífico equatorial ficam mais quentes que o normal. Esse aquecimento altera a circulação da atmosfera e interfere nos padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta.
Em análise global publicada no início do mês, a OMS esclarece que o El Niño não causa diretamente doenças. Ele funciona como um “modificador de risco”: as mudanças de temperatura e chuva podem criar condições mais favoráveis a determinados problemas de saúde, com impactos diferentes de acordo com a região e a vulnerabilidade da população e dos sistemas de atendimento.
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Chuvas intensas e inundações, por exemplo, podem contaminar fontes de água, prejudicar o saneamento e favorecer a proliferação de mosquitos. A seca também pode aumentar criadouros quando a falta de abastecimento leva ao armazenamento de água em recipientes. Já temperaturas elevadas e tempo seco podem favorecer incêndios e piorar a qualidade do ar.
Clima, doenças infecciosas e desnutrição
O calor extremo está entre as principais preocupações. A exposição a temperaturas elevadas pode provocar exaustão pelo calor e insolação e agravar doenças cardiovasculares, respiratórias, renais e metabólicas. Crianças pequenas, idosos, gestantes, pessoas com doenças crônicas e trabalhadores ao ar livre estão entre os grupos mais vulneráveis.
As mudanças de temperatura e chuva também podem alterar as condições de transmissão de dengue, zika, chikungunya, febre amarela e malária. Em áreas atingidas por enchentes, a contaminação da água e os danos ao saneamento elevam ainda o risco de doenças transmitidas pela água.
Outro efeito pode ocorrer na alimentação. Secas reduzem a disponibilidade de água e podem prejudicar lavouras, enquanto inundações podem destruir plantações e provocar perdas de animais. A OMS considera a insegurança alimentar e a desnutrição riscos importantes nos dois cenários, principalmente para populações que já vivem em situação vulnerável.
Os efeitos variam pelo mundo. Na África, a análise da OMS aponta, entre outros riscos, malária, cólera e insegurança alimentar em diferentes países. Partes do Sul e Sudeste da Ásia podem enfrentar calor, seca e escassez de água. No Pacífico, algumas áreas têm maior risco de seca, enquanto outras podem receber chuvas acima do normal.
O que pode acontecer no Brasil
No país, os efeitos também devem variar de acordo com a região. A OMS indica maior risco de calor, seca, redução dos níveis dos rios e incêndios em partes do Norte e da bacia Amazônica. Já áreas do Sul estão entre as regiões da América do Sul onde são esperadas chuvas acima do normal, com possibilidade de inundações e deslizamentos.
A análise da OMS destaca para o Brasil riscos elevados de leptospirose associada às inundações, febre amarela e oropouche. A malária exige atenção especialmente na bacia Amazônica. A dengue está entre os principais riscos identificados para as Américas.
Alguns problemas ambientais já são observados no país. Em comunicado na sexta-feira, 18, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) chamou atenção para a redução dos níveis de água na bacia amazônica e a deterioração da qualidade do ar associada aos incêndios florestais.
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De acordo com o monitoramento citado pela entidade, 630 municípios brasileiros registravam concentrações de partículas finas acima dos níveis recomendados pela OMS. Essas partículas presentes na fumaça podem penetrar profundamente nos pulmões.
A situação brasileira faz parte de um cenário mais amplo nas Américas. A Opas que mais de 5,2 milhões de pessoas estavam afetadas, expostas ou em situação de insegurança alimentar aguda nas áreas monitoradas. Oito países ou territórios apresentavam seca ou déficit hídrico, seis tinham incêndios florestais com impacto ou risco para a saúde e cinco registravam efeitos de chuvas intensas ou inundações. A entidade ressalta que nem todos esses eventos foram atribuídos diretamente ao El Niño.
Fenômeno deve se intensificar
A tendência é de fortalecimento nos próximos meses. Em declaração nesta terça-feira, 22, a secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Celeste Saulo, reforçou que “o El Niño está firmemente estabelecido e se intensificando rapidamente”.
“As previsões da OMM indicam uma probabilidade de quase 100% de que ele persista até fevereiro de 2027”, comentou Celeste. A expectativa é de que o fenômeno se torne muito forte no fim deste ano e possa atingir o limite superior dos registros históricos iniciados em 1950.
Isso não significa que cada região terá necessariamente seca, enchente ou calor extremo. “O El Niño altera as probabilidades; ele não determina o clima em todas as cidades nem causa todas as ondas de calor”, afirmou. A influência depende da região, da época do ano e da interação com outros fatores climáticos.
Serviços de saúde também estão sob risco
Além de aumentar a probabilidade de determinados problemas de saúde, os eventos extremos podem prejudicar o próprio atendimento. Inundações, deslizamentos, incêndios e interrupções de estradas podem danificar unidades ou dificultar o acesso dos pacientes. Falhas no fornecimento de água e energia também podem afetar hospitais, laboratórios e a conservação de medicamentos e vacinas.
A Opas recomenda que os países reforcem a vigilância epidemiológica e os sistemas de alerta, garantam acesso a água segura, vacinação e medicamentos e revisem os planos de contingência de hospitais e redes de atendimento.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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