Argentina vive Copa mágica com Messi enquanto enfrenta acusações de racismo

Principais pontos

  • A atual campeã mundial brilha com o recorde de Messi e jogos inesquecíveis, mas desempenho é ofuscado por controvérsias fora de campo.
  • Torcedores argentinos são acusados de racismo contra o streamer IShowSpeed, em episódios que a Fifa já investiga
  • Egito, derrotado nas oitavas de final, questiona a arbitragem e alega favorecimento à Argentina
Lionel Messi é lançado para o alto por companheiros de seleção após virada argentina contra o Marrocos
Lionel Messi é lançado para o alto por companheiros de seleção após virada argentina contra o Marrocos
Source: Associação do Futebol Argentino/Redes sociais

Há fatos sobre a campanha argentina na Copa do Mundo 2026 que nenhuma controvérsia consegue tocar. Um deles é que Lionel Messi é, até o momento, o maior artilheiro da história do mundial com 21 gols - nesta edição, ele superou o alemão Miroslav Klose. Também é incontestável a força do grupo no torneio que, defendendo o título que conquistou em 2022, protagonizou uma das maiores reviravoltas neste ano com a vitória de virada sobre o Egito no dia 7 de julho, que deu o passaporte para os argentinos para as quartas de final.

Os pontos de contestação estão nos episódios que aconteceram ao redor das partidas: as acusações de racismo envolvendo torcedores argentinos e uma sequência de questionamentos sobre possível tratamento privilegiado da arbitragem à seleção.

O primeiro caso de maior repercussão ocorreu no dia 3 de julho, em Miami, durante a vitória da Argentina sobre Cabo Verde por 3 a 2. O streamer norte-americano Darren Jason Watkins Jr., conhecido como IShowSpeed, acompanhava a partida com a camisa cabo-verdiana quando foi hostilizado por torcedores argentinos nas arquibancadas. “Volta para casa, macaco", gritou uma torcedora para o influenciador. 

A situação se repetiu no dia 7, em Atlanta, após a vitória argentina sobre o Egito por 3 a 2. Speed, então usando a camisa egípcia, filmou um torcedor argentino fazendo gesto de macaco em sua direção ao final da partida.

A Fifa confirmou, em nota, a abertura de uma investigação e disse condenar veementemente o racismo, o ódio e a discriminação "em todas as suas formas".

O caso não é isolado. Segundo levantamento divulgado pela Fifa em 1º de julho, foram identificadas cerca de 89 mil publicações abusivas nas redes sociais durante a fase de grupos da Copa de 2026 – um aumento de 13 vezes em relação à mesma etapa do Mundial do Catar, em 2022.

Jogadores holandeses também foram alvo de ofensas: Justin Kluivert, Quinten Timber e Crysencio Summerville sofreram ataques racistas nas redes após desperdiçarem pênaltis na eliminação da Holanda para o Marrocos, nos 16 avos de final. Outro episódio que repercutiu foi o ataque de uma senadora paraguaia, Celeste Amarilla, contra o atacante francês Kylian Mbappé, após a eliminação da seleção sul-americana para a França.

Durante a própria partida contra o Egito, o técnico Hossam Hassan cruzou os braços à altura dos pulsos em frente ao árbitro francês François Letexier, no minuto 93, segundos após o terceiro gol argentino. O gesto é o protocolo oficial da Fifa para denunciar suspeita de racismo em campo.

De acordo com o protocolo, o gesto pode acionar três níveis de resposta: interrupção momentânea da partida com aviso ao estádio, suspensão temporária com as equipes recolhidas ao vestiário, ou encerramento definitivo da partida em casos graves ou reincidentes.

Pelos relatos da delegação egípcia, Hassan entendeu que um gesto de caráter racista partiu da arquibancada durante a comemoração do terceiro gol argentino.

O árbitro optou por não interromper a partida nem acionar o protocolo, e advertiu Hassan com cartão amarelo. Em entrevista coletiva após o jogo, o técnico egípcio não falou explicitamente sobre a acusação de racismo, mas afirmou que os egípcios foram “tratados injustamente”.

Histórico antigo

Os episódios da Copa de 2026 não são um fato isolado na trajetória recente da seleção argentina. Em julho de 2024, um mês após a Argentina conquistar o bicampeonato da Copa América, o volante Enzo Fernández transmitiu ao vivo, pelo Instagram, um vídeo dentro do ônibus da delegação em que jogadores cantavam uma música com versos considerados racistas e transfóbicos contra atletas franceses de origem africana, incluindo Mbappé.

A canção já havia circulado entre torcedores argentinos durante a Copa do Mundo 2022, no Catar, torneio no qual a Argentina venceu a França na final.

Após a repercussão do vídeo de 2024, a Federação Francesa de Futebol formalizou queixa à Fifa e para a AFA (a associação de futebol argentina), e o Chelsea, clube de Enzo Fernández na época, abriu processo disciplinar interno contra o jogador.

O atleta publicou um pedido de desculpas nas redes sociais, afirmando que a música "inclui linguagem extremamente ofensiva" e que "não há qualquer desculpa para essas palavras". Um dos outros poucos argentinos envolvidos a se pronunciar foi o meio-campista Rodrigo De Paul, que minimizou o caso, afirmando ter se tratado de uma “brincadeira”.

Fora do ambiente da seleção principal, o histórico inclui outros episódios registrados por observatórios de discriminação racial no futebol. Em abril de 2022, um torcedor argentino foi detido na Neo Química Arena, em São Paulo, por fazer gesto de macaco durante partida entre Corinthians e Boca Juniors; a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) aplicou multa ao clube argentino.

Em 2023, durante semifinal entre Boca e Palmeiras, um torcedor exibiu no celular a palavra "macaco" voltada para a torcida brasileira; a Conmebol multou o clube e determinou a redução de lugares disponíveis em um setor do estádio, além da obrigatoriedade de hastear uma bandeira com a frase "basta de racismo" nas partidas seguintes.

Acusações de favorecimento arbitral

Após a eliminação nas oitavas de final, a Federação Egípcia de Futebol apresentou queixa formal à Fifa contra a equipe de arbitragem da partida, liderada por François Letexier e pelos assistentes Cyril Mugnier e Mehdi Rahmouni, pedindo investigação e o afastamento do trio do restante da competição.

O técnico Hassan chegou a insinuar interesse comercial na permanência da Argentina. "Talvez quisessem manter o campeão do mundo no torneio. Talvez quisessem que Messi continuasse na disputa por uma questão de marketing", disse. O atacante Mostafa Zico, autor de um gol anulado e de outro confirmado, afirmou que o campeonato estaria "direcionado".

O lance mais contestado foi a anulação do gol de Zico por decisão do VAR, que identificou uma falta no início do lance. Nos minutos finais da partida, o Egito reclamou de dois pênaltis não marcados a seu favor, envolvendo os jogadores Hamdi Fathy e Mohamed Salah. Nenhum dos lances foi assinalado pela arbitragem como penalidade.

Entre as seleções do torneio, a Argentina lidera o número de pênaltis a favor, com três cobranças, repetindo padrão observado na conquista do título de 2022, quando recebeu cinco pênaltis – recorde para uma única edição do Mundial.

Outro questionamento diz respeito à escalação da arbitragem para o confronto entre França e Marrocos, nas quartas de final. Pela primeira vez na Copa de 2026, toda a equipe de arbitragem em campo – árbitro principal, assistentes, quarto árbitro e árbitro reserva – foi formada por profissionais argentinos.

Nem toda "evidência" de favorecimento que circula na internet, porém, deve ser considerada. Um vídeo compartilhado nas redes sociais mostra o presidente da Fifa, Gianni Infantino, supostamente lamentando um gol do Egito durante a partida contra a Argentina. As imagens são de outra partida, entre Marrocos e Países Baixos, disputada em 29 de junho, usadas fora de contexto. Anteriormente, esse mesmo vídeo já havia circulado como suposta reação a um gol de Cabo Verde.

A federação argelina de futebol também protestou formalmente à Fifa ainda na fase de grupos, questionando a ausência de punição a Messi após uma entrada considerada dura sobre o capitão da seleção argelina, Aïssa Mandi.

O técnico argentino Lionel Scaloni rebateu as acusações de favorecimento, classificando as teorias como "histórias de internet sem qualquer fundamento técnico ou esportivo". A Fifa, por meio de nota padrão, informou apenas que relatórios de arbitragem são analisados internamente ao longo do torneio, sem se pronunciar publicamente sobre processos em andamento.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.