Brasil pode superar os EUA na liderança das exportações agrícolas
Principais pontos
- Estados Unidos exportaram US$ 171 bilhões em produtos agrícolas em 2025, ante cerca de US$ 169 bilhões do Brasil. A diferença entre os dois países caiu de US$ 56 bilhões, em 2021, para apenas US$ 2 bilhões no ano passado.
- Exportações brasileiras do setor cresceram 6% no primeiro semestre deste ano e atingiram o recorde de US$ 87 bilhões.
- Tarifas impostas por Donald Trump afastaram compradores chineses dos Estados Unidos e favoreceram o avanço brasileiro, principalmente no mercado de soja.

O Brasil pode ultrapassar os Estados Unidos e se tornar o maior exportador agrícola do mundo ainda em 2026. Em 2025, os norte-americanos exportaram US$ 171 bilhões em produtos agrícolas, de acordo com o Departamento de Agricultura do país. O Brasil vendeu aproximadamente US$ 169 bilhões, segundo dados do Ministério da Agricultura. A diferença foi, portanto, de US$ 2 bilhões. Em 2021, os norte-americanos exportavam US$ 56 bilhões a mais que os brasileiros.
A possibilidade de os produtores brasileiros assumirem a dianteira nesse campo foi apontada nesta terça-feira, 21, pelo jornal britânico Financial Times, que analisou a perda de espaço dos produtores norte-americanos e o avanço brasileiro no comércio internacional.
No primeiro semestre de 2026, as vendas externas do agronegócio brasileiro aumentaram 6% e alcançaram o recorde de US$ 87 bilhões. Esse é o maior valor para os primeiros seis meses do ano desde o início da série histórica, em 1997. Mantida essa trajetória, o Brasil poderá assumir a liderança mundial neste ano.
O país já ocupa posições de destaque nas exportações de soja, carne bovina, carne de frango, café, açúcar e suco de laranja. Além disso, em 2024, ultrapassou os Estados Unidos e se tornou o maior exportador mundial de algodão.
China mudou o destino de suas compras
Analistas ouvidos pelo Financial Times em Iowa, no Meio-Oeste dos Estados Unidos, e no Mato Grosso apontam a guerra comercial iniciada pelo presidente Donald Trump, em 2018, como um dos fatores centrais dessa mudança.
Naquele ano, Washington impôs tarifas sobre produtos chineses, e Pequim retaliou com uma taxa adicional de 25% sobre a soja norte-americana. O produto dos Estados Unidos perdeu competitividade na China, que transferiu parte das compras para o Brasil.
Nos primeiros seis meses do ano comercial 2018/2019, as importações chinesas de soja americana caíram de 24,4 milhões para 2,7 milhões de toneladas, enquanto as compras do produto brasileiro aumentaram de 14,2 milhões para 25,7 milhões. As relações comerciais e as rotas de abastecimento criadas desde então se consolidaram.
Dados da plataforma de comércio internacional da ONU, a UN Comtrade, mostram que, em 2016, a China comprava volumes semelhantes de soja brasileira e norte-americana. Depois da disputa tarifária, as trajetórias se distanciaram. Em 2025, o Brasil vendeu mais de 80 milhões de toneladas de soja ao mercado chinês, enquanto as exportações norte-americanas do grão para o país asiático ficaram abaixo de 10 milhões de toneladas.
As relações comerciais, a capacidade de processamento e as rotas de transporte construídas desde então se consolidaram, dificultando a recuperação dos fornecedores dos Estados Unidos. As novas disputas tarifárias promovidas por Trump em seu segundo mandato ampliaram a incerteza enfrentada pelos agricultores norte-americanos.
O governo dos Estados Unidos, porém, contesta a avaliação de declínio. O Departamento de Agricultura projeta exportações de US$ 174 bilhões nos 12 meses encerrados em setembro de 2026 e afirma estar trabalhando para abrir mercados. O país continua sendo o maior exportador mundial de milho, mas sua participação nesse comércio caiu de 68%, há duas décadas, para aproximadamente 30% atualmente.
Produção elevada e margens menores nos EUA
A reportagem do Financial Times destaca que os Estados Unidos continuam capazes de produzir grandes safras. O problema está na combinação de preços baixos, perda de mercados externos, custos elevados e crescente dependência de subsídios governamentais.
Estimativas da American Farm Bureau Federation, uma das principais organizações de representação dos agricultores e pecuaristas norte-americanos, indicam prejuízos de US$ 138 por acre no cultivo da soja, US$ 167 no milho, US$ 145 no trigo e US$ 406 no algodão.
Com isso, mesmo propriedades altamente produtivas enfrentam dificuldades para obter lucro. O cenário pode acelerar a concentração das terras em fazendas maiores e reduzir ainda mais o número de agricultores no país.
Ascensão brasileira começou antes das tarifas
O Financial Times ressalta que o avanço do Brasil não é apenas consequência da política comercial norte-americana. A transformação vem sendo construída ao longo de décadas por meio da expansão territorial, da correção de solos pobres em nutrientes e do desenvolvimento de variedades adaptadas ao clima tropical.
De acordo com a reportagem, o país, que ainda dependia de importações para alimentar sua população na década de 1970, tornou-se um dos principais fornecedores de alimentos do mundo. A produção brasileira de cereais, leguminosas e oleaginosas mais que dobrou em 13 anos e atingiu 346,1 milhões de toneladas em 2025.
Uma das vantagens é a possibilidade de obter duas safras no mesmo terreno durante o ano. Em áreas irrigadas, podem ser realizadas até três colheitas. No Mato Grosso, mais da metade das terras cultivadas recebe uma segunda plantação, geralmente de milho ou algodão, depois da colheita da soja. O cultivo contínuo permite dividir os custos fixos entre diferentes safras e melhorar as margens das propriedades.
Apesar da expansão, os produtores brasileiros não estão livres de dificuldades. O jornal britânico aponta os juros elevados, a queda dos preços de algumas commodities e a dependência de fertilizantes importados entre os principais riscos.
O Brasil compra no exterior aproximadamente 85% dos fertilizantes de que necessita. Os preços desses produtos aumentaram com a guerra entre Estados Unidos e Irã, elevando os custos de produção.
Em relação ao Mato Grosso, pesquisadores da Universidade Purdue, nos Estados Unidos, estimaram que o lucro da soja caiu para US$ 10 por acre na última colheita, o menor nível em duas décadas. Ainda assim, o Brasil entrou no atual período de instabilidade em uma posição mais favorável, com presença dominante no mercado chinês de soja e uma estrutura de produção capaz de sustentar sua expansão internacional.
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