Com emprego recorde, insegurança e salários baixos mantém eleitor pessimista, dizem especialistas
Principais pontos
- Brasil registrou taxa de desemprego de 5,3%, a menor da série histórica, e deflação de 0,40% em agosto.
- Mesmo com os indicadores positivos, pesquisas mostram que metade dos brasileiros avalia negativamente o momento econômico do país.
- Especialistas ouvidos pelo GSW Brasil analisam fatores que contribuem para esta percepção.

Dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro Geografia e Estatística) durante o mês de agosto mostraram que o Brasil registrou queda no desemprego e na inflação.
Na quinta-feira, 27, a taxa de desocupação registrada pela Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) foi de 5,3% no trimestre finalizado em julho, o mais baixo para o período desde o início da série histórica, em 2012. A taxa equivale a 103,3 milhões de brasileiros ocupados, sendo 39,4 milhões em trabalhos com carteira assinada.
O mesmo instituto registrou, no IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), considerado uma prévia da inflação oficial, deflação de 0,40% nos primeiros 15 dias de agosto. A redução média dos preços de bens e serviços atestada foi marcada por quedas nos valores da energia elétrica residencial, transportes e alimentação.
No mesmo contexto, pesquisa BTG/Nexus divulgada na segunda-feira, 24, mostrou que 50% dos eleitores acham que a economia brasileira está ruim ou péssima, ante 17% que avaliam o momento da área como ótimo ou bom e 32%, regular. Em julho, levantamento da AtlasIntel produziu registro similar: 52% dos entrevistados avaliaram negativamente a economia do país.
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Com a taxa básica de juros, a Selic, em 14,00% ao ano e a percepção de redução do poder de compra, opositores de Lula (PT) têm associado o presidente à contradição ao relembrar a promessa feita na campanha eleitoral de 2022 de que a população voltaria a "comer picanha". A estratégia de comunicação do petista, por sua vez, reforça os números positivos e a retomada do "pleno emprego" para contornar o desgaste.
Distância sob análise
Para entender quais são as explicações para o distanciamento entre os índices oficiais e a percepção pública, o GSW Brasil entrevistou um economista e um especialista em pesquisas eleitorais.
- Alex Agostini, economista-chefe da Austing Rating
- Renato Dorgan, cientista político e CEO do instituto Travessia de Pesquisas
GSW Há uma contradição entre os índices econômicos e a percepção popular do momento da economia nacional?
Alex Agostini A taxa de desemprego está caindo porque há maior velocidade do crescimento de população ocupada em relação à força de trabalho da economia, que cresce menos. A estrutura etária da economia está mudando, com mais pessoas idosas do que jovens e, portanto, menor entrada no mercado de trabalho.
Ao mesmo tempo, há uma mudança nos formatos de trabalho, com maior adesão ao empreendedorismo. Essas pessoas que trabalham por conta própria não estão desempregadas, o que também contribui para o aumento da taxa de ocupação.
Para compreender essa insatisfação popular, no entanto, é preciso analisar mais do que os índices. Quando as pessoas ligam no noticiário e recebem a informação da recuperação judicial ou extrajudicial de grandes varejistas, há uma sensibilização que gera a percepção de que as coisas estão ruins.
Claro que há outros indicadores negativos da atividade econômica, como a inflação acima da meta, a taxa de juros alta e o gasto elevado do governo, mas a opinião pública não se sensibiliza quanto a isso.
Renato Dorgan A realidade é de pleno emprego, mas salários baixos e uma uniformização perigosa, em que diversos empregos de menor remuneração têm médias similares. Ao mesmo tempo, a 'pejotização' e a 'uberização' prosseguem. Em pesquisas, ouvimos constantemente a manifestação de que é preferível trabalhar mais e complementar a renda com serviços informais do que não terem condições de se manter.
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Os salários são baixos pela falta de fôlego das pequenas e médias empresas, sujeitas a uma carga tributária elevada e com condições cada vez piores para contratar. Nestas circunstâncias, controle de inflação e baixo índice de desemprego não sustentam uma percepção positiva da economia.
Há ainda um receio muito grande, quando Lula manifesta irresponsabilidade fiscal e excesso de gastos públicos, quanto a uma possível repetição da crise do governo Dilma Rousseff, em 2025. Esse "fantasma" se mantém [do ponto de vista da percepção eleitoral].
GSW A estratégia da oposição para desgastar Lula com base no custo de vida elevado foi usada pelo próprio petista, em 2022, para enfrentar Jair Bolsonaro (PL). Essa repetição em um intervalo de quatro anos mostra que o Brasil enfrenta uma crise prolongada no que diz respeito a poder de consumo?
Alex Agostini Naturalmente, o aumento dos preço no supermercado gera uma percepção de responsabilidade direcionada ao governo atual porque, de fato, isso ocorreu sob sua gestão.
O governo teve gastos elevados, houve o tarifaço e questões climáticas que pesaram para isso, mas o recorte de período está dado. A opinião pública sempre será sensível ao bolso.
Renato Dorgan A vida das classes mais baixas não mudou absolutamente durante o atual governo Lula, como também não mudou no governo Bolsonaro.
Há uma orbital desde a crise do governo Dilma que o Brasil não consegue superar. A classe média se distanciou dos mais ricos e se aproximou dos mais pobres [em renda], os planos de saúde e a educação privada encareceram e jogaram mais pessoas para o SUS e a educação pública, que ainda são sistemas com muitas dificuldades. Não há desenvolvimento econômico real.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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