'Escolaricídio' e sufocamento territorial: Gaza, Cisjordânia e Líbano perdem educação, renda e terra
Principais pontos
- Guerra destruiu quase a totalidade das universidades em Gaza; conflito interrompeu os estudos de pelo menos 88 mil jovens;
- Verbas retidas por parte de Israel e a multiplicação de bloqueios provocaram uma queda de 17% no PIB da Cisjordânia;
- A nova zona de controle no sul do Líbano desalojou mais de um milhão de cidadãos e causou a destruição de milhares de residências e escolas.

Gaza, Cisjordânia e o sul do Líbano estão enfrentando processos de destruição de infraestrutura, retenção de receitas e ocupação territorial. Embora os contextos militares e políticos sejam diferentes em cada região, as consequências imediatas atingem os mesmos setores estruturais, sobretudo a educação e a economia.
Em relatório divulgado em junho deste ano, a Organização das Nações Unidas (ONU) descreveu a situação em Gaza como "obliteração sistêmica" do sistema educacional, com 95% dos 38 campi universitários de Gaza afetados pela guerra. Desses, 22 foram completamente destruídos. A prática passou a ser chamada de “escolaricídio”.
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) estimou, quando a guerra completou dois anos em outubro do ano passado, que cerca de 745 mil crianças e estudantes em Gaza estavam fora da escola. Segundo a Unesco, "a perspectiva de retomar a educação permanece altamente incerta devido aos extensos danos à infraestrutura educacional".
Dados compilados pela Deutsche Welle (DW) mostram que a destruição do sistema de ensino superior interrompeu a formação dos 88 mil estudantes universitários que viviam no enclave.
Segundo comunicado do órgão militar israelense responsável pela coordenação de atividades no território, cerca de 50 mil moradores da Faixa de Gaza deixaram o enclave desde o início da guerra rumo a outros países, por motivos que incluem tratamento médico, cidadania estrangeira, vistos de residência e estudos acadêmicos.
Outros levantamentos reforçam o tamanho do problema. Segundo a Euro-Med Human Rights Monitor, mais de sete mil estudantes e acadêmicos universitários foram mortos ou feridos desde outubro de 2023, e mais de 60 prédios universitários foram completamente demolidos. De acordo com a Unesco, mais de 1.100 trabalhadores do ensino superior foram mortos, detidos ou feridos até novembro de 2025.
Um estudo da Universidade de Cambridge em parceria com a UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina) estima que os fechamentos recorrentes de escolas desde 2020 – primeiro pela pandemia, depois pela guerra – já custaram às crianças de Gaza cinco anos de escolaridade.
Caso as escolas permaneçam fechadas até setembro de 2027, o mesmo estudo projeta atrasos escolares de até uma década para parte dos adolescentes. A reconstrução do sistema educacional palestino, segundo a pesquisa, custaria cerca de US$ 1,38 bilhão.
A versão israelense
O exército israelense (IDF) e a Coordenação de Atividades Governamentais nos Territórios (Cogat) atribuem a destruição de escolas e universidades ao uso militar dessas estruturas pelo Hamas. Segundo comunicado do IDF, o grupo instala "ilegalmente seus ativos militares em, sob e próximo a áreas civis densamente povoadas" e "explora cinicamente a infraestrutura civil para fins terroristas", incluindo escolas e instalações da UNRWA.
O IDF e a Cogat afirmam ter documentado dezenas de casos de túneis sob escolas – inclusive unidades da UNRWA – e uso de prédios civis como escudos humanos. Para Israel, a reconstrução da infraestrutura educacional só é viável após a desmilitarização completa de Gaza e a saída do Hamas do poder.
A Cogat diz coordenar a entrada de ajuda humanitária e materiais de construção no território, mas acusa o Hamas de desviar parte desses recursos para fins militares. Israel também argumenta que reconstruiu infraestrutura em Gaza após rodadas anteriores de conflito, e que o Hamas priorizou a construção de túneis e o armamento em detrimento do bem-estar civil. O Hamas nega repetidamente esconder combatentes em áreas civis.
Colapso econômico na Cisjordânia
Enquanto Gaza perde infraestrutura física, a Cisjordânia perde capacidade econômica por decisão orçamentária. Há mais de um ano, Israel retém o repasse das receitas fiscais e alfandegárias devidas à Autoridade Palestina (AP) sobre mercadorias importadas para os territórios ocupados. Segundo o ministro das Finanças da AP, Estephan Salameh, a medida gerou um prejuízo de US$ 5,7 bilhões apenas no último ano. A decisão foi tomada pelo ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich.
Segundo relatório do International Crisis Group (ICG) divulgado em junho de 2026, com base em investigações em Naplusa, Hebron, Ramallah, Jenin, Tulkarem, Belém e outras cidades da Cisjordânia, cerca de 160 mil pessoas – 28% da população economicamente ativa da região – dependem diretamente do orçamento da AP.
O relatório do ICG registra ainda que Israel construiu cerca de mil novas barreiras na Cisjordânia desde o início da guerra em Gaza, segundo dado da Associated Press de outubro de 2025; o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA) já havia contabilizado 849 barreiras em julho de 2025.
O Produto Interno Bruto (PIB) da Cisjordânia caiu cerca de 17% desde 7 de outubro de 2023, e o desemprego na região está em torno de 28%, segundo dados de junho deste ano. Em Naplusa, especificamente, o ICG documenta a multiplicação de pontos de controle militares israelenses desde outubro de 2023, nove ao redor da cidade e 63 em todo o território.
O impacto sobre a educação é direto. Segundo estimativas da AP, mais de 84 mil estudantes na Cisjordânia tiveram a educação interrompida por ataques de colonos, incursões militares e demolições de escolas. Mais de 80 escolas, atendendo cerca de 13 mil estudantes, estão sob ameaça de demolição total ou parcial por parte das autoridades israelenses na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.
Só entre julho e setembro de 2025, mais de 90 incidentes ligados à educação foram documentados na região. Em escolas públicas da Cisjordânia, incluindo a escola primária Zenabia, em Naplusa, as aulas passaram a funcionar no máximo três dias por semana, em razão dos cortes de recursos.
Em Jerusalém Oriental, o quadro tem contornos específicos. De acordo com relatório de 2026 da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), o acesso à educação e à saúde na região é restrito, o que afeta diretamente a qualidade do capital humano palestino – considerado pelo próprio relatório como "o mais importante recurso" da população local.
Em janeiro de 2026, o Ministério da Educação e do Ensino Superior da Autoridade Palestina classificou a negação de licenças a centenas de professores e funcionários com documento de identidade da Cisjordânia como "uma violação grave e flagrante do direito à educação", em nota oficial.
Segundo o ministério, a medida forçou escolas particulares de Jerusalém a suspender aulas por dois dias para garantir a continuidade do processo educacional e a segurança da equipe.
Ainda segundo o relatório do OCHA de 26 de junho de 2026, entre 16 e 22 de junho as autoridades israelenses demoliram 21 estruturas de propriedade palestina por falta de licenças de construção emitidas por Israel, descritas pelo próprio órgão da ONU como "quase impossíveis de obter" para palestinos. Cinco dessas demolições ocorreram em Jerusalém Oriental.
No mesmo período, mais de 2.600 palestinos na área de Kafr Aqab, em Jerusalém Oriental, foram afetados pela demolição de um prédio residencial e de uma via, que danificou redes de água, eletricidade e esgoto.
Yellow line: o novo território sob ocupação no Líbano
Desde abril de 2026, o exército israelense estabeleceu no sul do Líbano uma linha de demarcação batizada de "yellow line", uma faixa de controle militar criada para servir como zona de isolamento tático e segurança na região fronteiriça, que se estende entre três e dez quilômetros ao norte da fronteira com Israel. A área abrange cerca de 6% do território libanês e corta a região de Arqoub, no distrito de Hasbaya, incluindo sete vilarejos principais.
Em 15 de junho de 2026, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarou que as forças israelenses permaneceriam na "zona de segurança" do Líbano "pelo tempo que for necessário". Em 24 de junho, o ministro da defesa israelense, Israel Katz, afirmou que as tropas não deixariam o sul do Líbano "mesmo que os Estados Unidos exijam", acrescentando que "200 mil residentes não retornarão" às suas casas.
Segundo a Reuters, a ocupação israelense de 2026 chega a cobrir entre 570 e 600 quilômetros quadrados de território libanês. De acordo com o Líbano, mais de 1,2 milhão de cidadãos libaneses, um sexto da população do país, foram deslocados desde o início do conflito em março de 2026. Mais de 40 mil residências no sul do Líbano foram destruídas, conforme o mesmo levantamento.
O impacto sobre a infraestrutura educacional e social já é registrado por organizações humanitárias. Segundo o Arab Center Washington DC, aproximadamente 400 mil crianças deslocadas enfrentam o que psicólogos classificam como ruptura no senso de segurança, com potencial de trauma duradouro; escolas em todo o país tiveram atividades interrompidas, e mais de 200 unidades de saúde foram atingidas por ataques.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.