Há 20 anos, relatório japonês alertou sobre riscos de terremotos na Venezuela

Principais pontos

  • Um estudo da agência japonesa Jica entregue à Venezuela em 2005 já chamava atenção para a alta vulnerabilidade sísmica e o risco de colapso estrutural em Caracas e La Guaira.
  • Passadas duas décadas desse relatório, venezuelanos enfrentam as consequências do duplo terremoto de 24 de junho, que deixou, até o momento, 3.342 mortos e 16.700 feridos.
  • Enquanto o governo reportou danos em 855 edifícios, análises preliminares de satélite da Nasa estimam que cerca de 58.870 estruturas tenham sido afetadas no país.
Mapa aponta locais mais atingidos pelos terremotos na Venezuela
Mapa aponta locais mais atingidos pelos terremotos na Venezuela
Source: Nasa/ Earthdata GIS

Um estudo técnico entregue ao governo da Venezuela em março de 2005 pela Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica) detalhou a alta vulnerabilidade sísmica de Caracas e La Guaira, regiões atingidas por um duplo terremoto de magnitudes 7.2 e 7.5 na escala Richter em 24 de junho.

O documento, elaborado ao longo de três anos por geólogos japoneses e especialistas locais, apontava que as características geológicas do solo amplificariam os tremores e que a falta de planejamento urbano resultaria em colapso estrutural. Até o momento, 3.342 pessoas foram encontradas mortas e 16.700 ficaram feridas após os abalos sísmicos.

Oficialmente, o governo venezuelano anunciou que 855 edifícios foram atingido pelos tremores. A Nasa, agência espacial americana, no entanto, estima que cerca de 58.870 estruturas tenham sido danificadas ou destruídas no país, segundo uma análise preliminar com base em dados do radar do satélite europeu Sentinel-1, do programa Earthdata GIS (Sistema de Informação Geográfica de Dados Terrestres).

O que dizia o estudo japonês 

O Estudo sobre o Plano Básico de Prevenção de Desastres no Distrito Metropolitano de Caracas foi encomendado após os deslizamentos de terra de 1999 em La Guaira. O objetivo era mapear cientificamente os riscos associados a movimentos de massa, inundações e sismos na região norte do país.

O relatório final apresentou três conclusões estruturais:

  • Praticamente nenhuma construção nas áreas analisadas atendia aos parâmetros de engenharia necessários para resistir a abalos de grande magnitude.
  • Unidades de saúde e quartéis de equipes de resgate estavam edificados em zonas de risco mapeadas, sujeitos à interrupção de funcionamento imediata após um sismo.
  • Os modelos matemáticos do relatório projetavam até 20.000 mortes e 40.000 prédios danificados caso as normas de construção e as reformas urbanas propostas no plano maestro não fossem executadas pelas gestões públicas.

O relatório foi entregue ao então presidente Hugo Chávez, que teria ignorado as recomendações. Especialistas ouvidos pela emissora alemã Deutsche Welle apontam que a fragilidade estrutural de parte das habitações populares e construções públicas, a falta de fiscalização ao longo dos anos e a instabilidade do solo em La Guaira podem ter ampliado os efeitos dos terremotos.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.