Livro analisa a independência americana, que comemora 250 anos sob Donald Trump

Principais pontos

  • Os Estados Unidos chegam aos 250 anos de independência em meio a uma polarização explosiva, sediando a maior Copa do Mundo da história, enquanto o governo Trump enfrenta um esvaziamento de público nas comemorações oficiais em Washington.
  • Em um momento de reflexões sobre o papel reservado aos EUA na nova ordem global, um livro recém-lançado na França, "1776: O ano americano", do historiador Bertrand Van Ruymbeke, resgata a complexidade e a ruptura da chamada Revolução Americana.
  • A obra destaca o tabuleiro diplomático transatlântico e o pragmatismo europeu por trás da independência por meio de uma pesquisa densa e minuciosa.
Apresentação do rascunho da Declaração de Independência dos EStados Unidos. Pintura de John Trumbull, de 1818.
Apresentação do rascunho da Declaração de Independência dos EStados Unidos. Pintura de John Trumbull, de 1818.
Source: DepositPhotos

Os Estados Unidos comemoram seu 250 anos de independência em um momento inusitado. Em várias de suas metrópoles, times e torcidas vindos de países dos quatro cantos do mundo (entre eles, o Brasil) celebram a maior Copa de Mundo da Fifa já realizada — e atualmente prestes a começar a fase de oitavas de finais.

Em Washington, o presidente Donald Trump tentou preparar um cenário para uma festa estrondosa, mas que não parece estar dando muito certo. Sua reforma do espelho de água em frente ao Memorial de Abraham Lincoln foi um desastre e a festa que está realizando já há alguns dias no Mall tem atraído apenas uma ínfima parte do público esperado.

Nesse cenário, cabe uma reflexão sobre o que foi a independência dos Estados Unidos e seu significado para a história ocidental como conhecemos hoje.

Tal análise pode ser encontrada em um livro recém-lançado na França, escrito por um dos maiores especialistas do país. Trata-se de "1776: O ano americano" ("1776: L'année américaine", EditoraTallandier, 616 páginas ainda sem previsão de tradução ou lançamento no Brasil).

No livro, o historiador Bertrand Van Ruymbeke, professor de civilização e história americanas na Universidade Paris 8 e membro sênior do Instituto Universitário da França, um dos maiores especialistas franceses em relações transatlânticas entre a Europa e a América do Norte, entrega uma obra que foge do romance heroico e linear para mergulhar nas entranhas de um dos movimentos políticos mais complexos da história moderna. No livro, o leitor é convidado a abandonar o mito do "rio calmo e longo" e a encarar a história em sua escala mais crua e documental.

Em "1776: O ano americano", Van Ruymbeke abre a narrativa com o início da carreira de Benjamin Franklin e a explosiva Boston Tea Party, em 1773. O verdadeiro trunfo do autor está em sua perspectiva transatlântica. A abordagem não se isola no solo americano; ela costura um intrincado tabuleiro de xadrez diplomático que conecta os bastidores inflamados da Filadélfia, os gabinetes obstinados de Londres e os salões calculistas de Versalhes.

É nesse vaivém geográfico que descobrimos como a independência americana foi moldada tanto pelo idealismo dos colonos quanto pelo pragmatismo francês — personificado por Charles Gravier de Vergennes, ministro de Luís XVI, que viu na revolta a oportunidade perfeita para sangrar economicamente a rival Inglaterra.

Detalhamento e erudição

O grande mérito da obra reside no seu rigor quase cirúrgico. Van Ruymbeke não reconstrói o período com base em generalizações históricas, mas sim através da multiplicação e cruzamento meticuloso de fontes primárias compostas por diários oficiais, relatórios confidenciais, correspondências íntimas entre partidários e opositores do movimento separatista e relatos de diplomatas, pessoas comuns e espiões que operavam nas sombras.

Figuras colossais como Thomas Jefferson, John Adams, George Washington e o rei George III são analisadas sob uma ótica humana e multifacetada. No entanto, tamanha precisão científica cobra o seu preço do leitor comum. O livro exige uma atenção sustentada e fôlego. São 548 páginas de uma exegese densa de memórias e recortes de imprensa da época, sustentadas por impressionantes 68 páginas de referências bibliográficas e índices. Não se trata de uma leitura de aeroporto, mas de uma verdadeira suma informativa sobre os anos de fricção que antecederam o 4 de julho.

Com isso, "1776: O ano americano" consolida-se imediatamente como uma nova obra de referência historiográfica. Ao destrinchar os laços de todos os atores envolvidos — sem esquecer praticamente nenhum —, Van Ruymbeke entrega um ensaio brilhante, embora assumidamente direcionado a um público iniciado, advertido e apaixonado por história política. Quem se dispuser a vencer a densidade de suas páginas fechará o volume com a certeza de ter testemunhado, através dos olhos de especialistas, o momento exato em que o destino do mundo ocidental mudou de rumo.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.