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Violência leva 98% das brasileiras a mudar hábitos e até a abrir mão de trabalhos
Principais pontos
- Pesquisa dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva mostra que quase 8 em cada 10 mulheres já sofreram algum tipo de violência; a psicológica foi a mais relatada.
- Medo fez 45% deixarem passar oportunidades de trabalho ou estudo e 58% evitarem lugares de que gostam.
- Para 78% das entrevistadas, ter propostas de combate à violência contra mulheres nas ruas e no transporte público vai pesar na decisão de voto nas próximas eleições.

A violência e o medo de sofrê-la mudam a rotina de praticamente todas as brasileiras. Uma pesquisa dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, divulgada nesta quarta-feira, 16, mostra que 98% das mulheres entrevistadas adotam pelo menos uma estratégia no dia a dia para reduzir o risco de violência.
Evitar determinados lugares, deixar de sair à noite, mudar o caminho habitual, compartilhar a localização com alguém de confiança e recorrer a um carro ou moto por aplicativo para não andar pelas ruas estão entre essas estratégias.
Mas as consequências vão além das mudanças na rotina. O medo já levou 45% das mulheres ouvidas pela pesquisa a deixar passar oportunidades de trabalho ou estudo. Outras 58% deixaram de frequentar lugares de que gostavam e 44% já pensaram em mudar de bairro ou cidade para se sentirem mais seguras.
Os dados fazem parte da pesquisa “Segurança das mulheres: percepção da sociedade brasileira sobre a violência”, realizada pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, com apoio da Uber.
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Foram ouvidas 1.500 pessoas acima de 16 anos, de todas as regiões do Brasil, entre 22 e 30 de abril de 2026. As entrevistas foram realizadas de forma digital, por autopreenchimento. A margem de erro informada é de 2,8 pontos percentuais.
94% se sentem inseguras
A sensação de insegurança é quase generalizada entre as mulheres ouvidas. A pesquisa encontrou uma diferença de dez pontos percentuais entre elas e os homens:
94% das mulheres se sentem inseguras diante da violência no dia a dia;
84% dos homens têm a mesma percepção.
Nos deslocamentos pela cidade, a diferença diminui, mas o medo continua muito elevado: 94% das mulheres e 90% dos homens dizem temer a violência nessas situações.
A pesquisa também perguntou à população sobre a vulnerabilidade de homens e mulheres a diferentes formas de violência. As mulheres são percebidas como mais vulneráveis principalmente à violência doméstica, sexual, psicológica e física.
Quase 8 em cada 10 já sofreram violência
O medo não aparece isolado das experiências vividas pelas próprias mulheres. Entre as entrevistadas:
78% afirmam já ter sofrido pelo menos um dos tipos de violência investigados;
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a violência psicológica é a mais declarada;
6 em cada 10 dizem temer atualmente a violência doméstica.
Os resultados ajudam a explicar por que a preocupação com a segurança acompanha as mulheres em diferentes espaços da cidade.
Onde elas se sentem menos seguras
Pontos de ônibus e estações estão entre os locais que provocam maior sensação de vulnerabilidade:
42% não se sentem nada seguras em pontos de ônibus e estações;
41% não se sentem nada seguras em bares, festas e baladas;
33% não se sentem nada seguras dentro do transporte público.
A insegurança acaba interferindo não apenas no lugar aonde as mulheres vão, mas também em quando, como e com quem elas se deslocam.
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Medo interfere em lazer, transporte e trabalho
A pesquisa dimensiona algumas dessas mudanças:
62% já mudaram hábitos de lazer;
58% deixaram de frequentar lugares de que gostavam;
56% já escolheram algum meio de transporte em vez de ir a pé, mesmo quando o destino era próximo;
45% deixaram de aproveitar oportunidades de trabalho ou estudo;
44% já pensaram em mudar de bairro ou cidade para se sentirem mais seguras.
Para Maíra Saruê, diretora de pesquisa do Instituto Locomotiva, a insegurança é alimentada por experiências concretas de violência, vividas pelas próprias mulheres ou compartilhadas por outras pessoas próximas. “A pesquisa mostra que o medo da violência atravessa a forma como as mulheres vivem e circulam pelas cidades”.
Segundo ela, as brasileiras acabam adaptando trajetos, horários e formas de deslocamento e até escolhas relacionadas ao trabalho, estudo e lazer. “Na prática, mulheres e homens não vivem a cidade da mesma maneira”, diz.
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O que 98% fazem para tentar se proteger
Quase todas as brasileiras ouvidas — 98% — adotam pelo menos uma das estratégias pesquisadas para reduzir o risco de violência. Algumas medidas já fazem parte da rotina de mais de oito em cada dez mulheres:
90% evitam determinados locais;
88% evitam compartilhar informações pessoais ou a localização nas redes sociais;
84% evitam usar o celular na rua;
83% avisam alguém sobre seus deslocamentos e horários;
83% evitam sair à noite;
80% evitam utilizar aplicativos bancários no celular quando estão na rua.
Outros comportamentos mostram como a preocupação com a violência interfere diretamente na mobilidade:
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77% compartilham a localização com pessoas de confiança;
69% mudam seus trajetos habituais;
66% chamam carro ou moto por aplicativo para não precisar andar pelas ruas;
66% pedem para alguém acompanhá-las quando saem de casa.
Entre outras estratégias, 63% evitam sair com cartão de crédito, 62% utilizam aplicativos com recursos de segurança e 30% andam com um celular reserva.
Há ainda mulheres que adotam medidas específicas de proteção: 27% praticam ou já praticaram técnicas de defesa pessoal e 26% carregam itens de proteção pessoal, como spray de pimenta ou alarme pessoal.
Vera Vieira, diretora executiva do Instituto Patrícia Galvão, ressalta que o estudo confirma que a insegurança deixou de ser uma percepção ocasional. “Ela se transformou numa rotina de cálculos e renúncias silenciosas”, afirma.
De acordo com Vera, isso mostra que a segurança das mulheres não é uma pauta setorial, mas uma condição para o exercício pleno da cidadania. “Por isso, reforçamos a urgência de políticas públicas que ampliem os canais de denúncia, melhorem a infraestrutura das cidades e enfrentem as desigualdades que sustentam esse cenário”.
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O tema faz diferença nas escolhas eleitorais. Para 78% das mulheres entrevistadas, ter propostas de enfrentamento à violência e ao assédio contra as mulheres nas ruas e no transporte público influenciará a decisão de voto nas próximas eleições.
A cobrança se estende a diferentes esferas do poder público. Para 73% das entrevistadas, as polícias militar e civil têm responsabilidade na prevenção e no enfrentamento da violência, seguidas pelos governos federal e estadual, ambos com 69%, e pelos municípios, com 66%.
Ao mesmo tempo, a atuação das instituições nesse campo recebe avaliações negativas: Legislativo (74%), governo estadual (72%), Judiciário (71%) e governo federal (71%).
O que as mulheres consideram importante mudar
A pesquisa também perguntou quais medidas são consideradas importantes para prevenir e enfrentar a violência:
95% defendem a ampliação dos canais de denúncia e apoio às vítimas;
93% consideram importante melhorar a infraestrutura das cidades, incluindo transporte público, iluminação e espaços públicos;
93% defendem a criação ou ampliação de políticas específicas de proteção às mulheres;
93% consideram importantes ações de prevenção, como educação e medidas voltadas à mudança cultural;
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92% apontam a redução das desigualdades sociais e econômicas como parte das estratégias de prevenção e enfrentamento da violência.
As respostas mostram que, para as entrevistadas, enfrentar a violência contra as mulheres envolve tanto proteção e atendimento às vítimas quanto mudanças no espaço urbano e ações preventivas.
Crédito da foto no alto: Depositphots/ Kraken Images
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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