A fronteira agrícola e as eleições de outubro

Principais pontos

  • Relatório da FGV mostra que a fronteira agrícola do Brasil – formada pelos estados do Centro-Oeste e Norte – responde por aproximadamente 15% do eleitorado nacional e emerge como um núcleo decisivo nas eleições deste ano.
  • As duas regiões respondem por cerca de 16% do PIB brasileiro e geram em torno de 25% do total das exportações — equivalente a US$ 86,6 bilhões em 2025.
  • O documento examina como os moradores da fronteira agrícola enxergam o papel de atores externos como Estados Unidos, China e União Europeia.
Fazenda de cultivo de soja em Balsas (MA).
A 'fronteira agrícola' responde por cerca de 16% do PIB brasileiro. Ela compreende culturas como a da soja, como nesta fazenda em Balsas (MA).
Source: Fernando Frazão/Agência Brasil

A Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) lançou o relatório "Como a fronteira agrícola vê as relações internacionais", uma pesquisa de opinião pública com mil adultos, em 70 municípios do Centro-Oeste e Norte do Brasil, área conhecida como a fronteira agrícola do país. É também considerada uma das regiões eleitorais mais expostas internacionalmente entre as grandes democracias da América Latina. 

O levantamento diz que, até o momento, não existiam dados sistemáticos sobre como os moradores das duas regiões brasileiras enxergam as potências estrangeiras, as regras comerciais e os regimes regulatórios que estruturam suas vidas economicamente.  

Devido à sua exposição econômica internacional e peso na economia brasileira, a fronteira agrícola do Brasil responde por aproximadamente 15% do eleitorado nacional, e emerge como um núcleo decisivo nas eleições presidenciais de outubro de 2026, destaca o relatório da FGV, que tem como autores Matias Spektor, Guilherme N. Fasolin e Enrico Recco. 

Os dados mostram que o Centro-Oeste e o Norte juntos respondem por aproximadamente 16% do PIB brasileiro e geram cerca de 25% do total das exportações — equivalente a US$ 86,6 bilhões em 2025. O Centro-Oeste sozinho produz 48% da produção brasileira de grãos e oleaginosas e, em conjunto com o Norte, detém 58% do rebanho bovino nacional.  

Essa concentração da produção em um conjunto restrito de commodities comercializadas globalmente — principalmente soja e carne bovina — torna a fronteira extremamente sensível às variações na demanda internacional, na política comercial e nos padrões regulatórios. 

Por que a fronteira agrícola importa é uma imagem tirada do estudo da FGV
Estudo da FGV entrevistou mil pessoas que vivem em 70 municípios das regiões Norte e Centro-Oeste.
Source: FGV

Em razão da região ser profundamente integrada aos mercados globais, o relatório examinou três atores externos: a China como compradora dominante da produção de commodities da região, os Estados Unidos como provedores da tecnologia, logística e infraestrutura corporativa que levam essa produção ao mercado, e a União Europeia como autoridade regulatória cujos padrões ambientais condicionam cada vez mais o acesso a mercados consumidores de alto valor.  

O relatório, que foi financiado em parte pelo Departamento de Estado dos EUA, examina como os moradores da fronteira agrícola enxergam cada um desses atores. 

Na avaliação dos entrevistados, a dependência econômica da China não compra confiança política. O país asiático absorveu 80% das exportações de soja e 86% das exportações de carne bovina da fronteira em 2022, mas os moradores confiam substancialmente mais nos Estados Unidos.  

A parcela de entrevistados que descrevem os EUA como “muito confiáveis” supera a da China em mais de 9 pontos percentuais, e a confiança na China caiu quase 20 pontos desde 2017 — mesmo com o crescimento dos volumes comerciais.  

Os Estados Unidos são vistos como uma presença tanto econômica quanto política; a China é percebida principalmente como um ator econômico cuja influência política permanece indefinida e aberta a reinterpretações. Enquanto isso, empresas norte-americanas foram responsáveis por 47,9% das exportações de soja da fronteira para a China. 

Com relação à regulação ambiental da União Europeia, o relatório diz que quase três quartos dos entrevistados concordam que cumprir os requisitos ambientais relacionados ao comércio com a UE fortaleceria a reputação internacional do Brasil. 

No entanto, dois terços também concordam que a conformidade reduziria a competitividade dos produtos brasileiros, e 61,5% acreditam que as regulações servem principalmente aos interesses econômicos europeus.  

Essas avaliações coexistem: os entrevistados tratam a conformidade como benéfica para o posicionamento do Brasil e, simultaneamente, onerosa para os produtores, sem considerar que uma cancela a outra. O resultado é uma conformidade pragmática, não um alinhamento normativo. 

O levantamento mostra ainda que 44% dos entrevistados se identificam politicamente como de direita. Para 56% das pessoas, o governo interfere demais na vida cotidiana. Além disso, 64% acreditam que a regulação dos negócios pelo governo faz mais mal do que bem, e dois terços são favoráveis à flexibilização das regulações ambientais domésticas.  

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.