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Artigo | Mulheres votam melhor

Paulo Figueiredo Filho: influenciador de direita afirmou que mulheres votam 'estatisticamente muito mal'
Paulo Figueiredo Filho: influenciador de direita afirmou que mulheres votam 'estatisticamente muito mal'
Source: Reprodução/YouTube
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Acompanhando eleições por meio de pesquisas qualitativas e quantitativas em diferentes regiões do Brasil há muitos anos, tenho notado algo: homens e mulheres decidem cada vez de forma cada vez mais diferente como votar.

Não quero dizer com isso que exista um “voto feminino” único -- seria um erro imaginar que mais da metade do eleitorado brasileiro pudesse ser colocada dentro de uma única categoria. A mulher jovem da periferia de uma capital, a empresária de classe alta, a agricultora do interior, a aposentada, a mãe solo, a evangélica e a universitária vivem realidades diferentes e têm visões políticas completamente distintas.

Apesar dessas diferenças de classe, ofício, religião e geração, minhas experiências em pesquisas têm mostrado alguns comportamentos recorrentes que merecem atenção e, na prática, poderão ser decisivos para compreender a eleição que se avizinha.

Serviço público como experiência concreta

Um dos aspectos mais constantes em levantamentos é a relação das mulheres com os serviços públicos. Saúde e educação, por exemplo, deixam rapidamente de ser conceitos abstratos quando entramos em um grupo qualitativo feminino.

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A saúde é a consulta que não foi marcada, o remédio que faltou, o exame que demorou meses ou a qualidade do atendimento recebido por um pai idoso ou filho pequeno. Educação, por sua vez, é a professora que falta, a qualidade da merenda, a creche que não tem vaga ou a distância que o filho percorre para estudar.

Isso acontece porque, apesar das profundas transformações ocorridas nas famílias brasileiras, recai sobre as mulheres uma parcela maior, para não dizer única, das responsabilidades relacionadas ao cuidado dos filhos, dos idosos e da própria organização familiar.

Consequentemente, determinadas políticas públicas chegam a elas de maneira muito concreta: elas não apenas “avaliam a saúde”, mas a experienciam e testam, na prática, em nome de toda a família.

Escolha menos automática

Mulheres apresentam maior resistência a definir seu voto com grande antecedência. Isso não deve ser confundido com desinteresse por política; ao contrário, em muitos casos, aquilo que uma pesquisa quantitativa classifica como “indecisão” pode esconder um processo mais complexo de escolha.

A eleitora compara candidatos, observa comportamentos, confronta aquilo que escuta com sua própria realidade e pode alterar sua decisão durante a campanha. Por isso, candidatos que acreditam que uma eleição está definida meses antes do voto deveriam prestar especial atenção ao eleitorado feminino.

O voto declarado antecipadamente nem sempre possui a mesma rigidez: “o poderia votar” reina entre mulheres, enquanto o “votaria com certeza” é muito mais raro. Naturalmente há mulheres profundamente identificadas com esquerda, direita, partidos ou lideranças políticas, mas nossas pesquisas revelam eleitoras menos dispostas a aceitar automaticamente tudo aquilo que vem do campo político com o qual simpatizam.

Eleitora vota para presidente da República em 1955
Eleitora vota para presidente da República em 1955
Source: Arquivo/Senado Federal

Corrupção tem graus de incômodo

É evidente que corrupção incomoda homens e mulheres. Mas existe uma dimensão particular quando o desvio de dinheiro público é associado a serviços essenciais. Roubar dinheiro público é uma afirmação abstrata, mas roubar dinheiro da merenda das crianças é outra.

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Desviar recursos destinados à compra de medicamentos, equipamentos hospitalares, creches ou escolas transforma a corrupção de uma questão ética em uma questão humana e revolta mais as mulheres do que os homens.

Nos grupos qualitativos, essa mudança de enquadramento frequentemente modifica completamente a intensidade da reação, porque o dinheiro deixa de ser simplesmente “dinheiro do governo”, e passa a ser piora de prestação de serviços.

Firmeza não é brutalidade

Um dos maiores erros da política contemporânea é acreditar que agressividade é sinônimo de força. E essa percepção do equívoco é muito clara para as mulheres, que refutam a transformação do ataque em instrumento permanente de comunicação.

Os gritos, humilhações, ironias e demonstrações públicas de intolerância que se tornaram virtudes de popularização para parte da classe política são, de maneira geral, rejeitados pelas eleitoras -- mesmo quando elas simpatizavam com o candidato responsável pelo comportamento agressivo. A rejeição ao comportamento pesa.

O eleitorado feminino defende que posições firmes sobre segurança, economia ou costumes conservadores não precisam ser acompanhados por um discurso que transforme divergência em ódio. Firmeza não é brutalidade.

O fator 'vida real' nas promessas

Diante de promessas grandiosas e propostas que solucionam problemas em um passe de mágica, a cartilha feminina prevê desconfiança. Em pesquisas, é comum que as mulheres façam cobranças concretas: como será feito? Quanto tempo levará? Isso é responsabilidade daquele cargo? De onde virá o dinheiro?

A dimensão prática da escolha se baseia na experiência cotidiana de cada uma dessas eleitoras. Quem administra um orçamento doméstico apertado sabe que escolhas precisam ser feitas. Quem passou meses tentando conseguir uma consulta pelo sistema público dificilmente acredita que um problema estrutural desaparecerá apenas porque assim foi prometido.

Segurança para a família

A segurança pública é a área de governo que melhor demonstra as nuances do eleitorado feminino. Seria equivocado imaginar que mulheres desejam uma política “branda” de segurança: o medo é extremamente presente na vida feminina.

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A mulher pensa no assalto, mas também no caminho até o ponto de ônibus, no filho que volta tarde para casa, na filha adolescente e o risco da violência sexual, na violência doméstica, nas drogas próximas da escola e na vulnerabilidade dos idosos. Sua experiência da insegurança pode, portanto, ser mais ampla.

Justamente por isso, propostas simplistas nem sempre respondem à complexidade do problema percebido, e o discurso vingativo pode provocar aplausos, mas não necessariamente comunica solução. Há espaço para firmeza no discurso, demanda por polícia, investigação, punição e presença do Estado. Mas também existe uma pergunta mais profunda: isso vai fazer minha família ficar mais segura?

Confiança como ponto de partida

Depois de observar milhares de pessoas discutindo política em pesquisas qualitativas ao longo dos anos, percebi que confiança é o início de qualquer relação do voto feminino com o candidato. Dúvidas que levam à reflexão do voto surgem entre mulheres como: essa pessoa parece preparada? Equilibrada? Entende os problemas da minha família?

O candidato pode ser admirado pela coragem, pela agressividade ou pela capacidade de enfrentamento. Mas essas mesmas características, quando ultrapassam determinado limite, podem ser interpretadas como impulsividade, intolerância ou ausência de equilíbrio, e aí a ponderação feminina entra.

Não há eleitora única

Não existe “a mulher brasileira”. O que descrevi aqui foram tendências observadas em pesquisas, e não regras universais e homogêneas.

A mulher muda demais seu perfil conforme classe social, idade, escolaridade, religião, região do país, se é mãe ou não, e do modo de sua inserção no mercado de trabalho, além de experiências pessoais com violência e serviços públicos.

Ainda assim, a a maioria dos candidatos aposta em plataformas semelhantes para conquistar toda essa fatia do eleiotrado. Essa distinção é fundamental e é o grande erro das campanhas. Campanhas políticas ainda cometem um erro primário quando pensam nas mulheres: tratá-las como "pauta".

A cada período eleitoral, aparecem propostas “para as mulheres”, eventos “para mulheres”, peças publicitárias cor-de-rosa e discursos preparados especificamente para o chamado público feminino. Frutos de uma visão incompleta e ultrapassada, essas estratégias encaram as mulheres como grupo homogêneo e as alijam das discussões sobre emprego, inflação, saúde, educação, segurança e habitação.

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Em muitas famílias e comunidades, as mulheres exercem papel central na circulação de informações e na formação de percepções sobre aquilo que acontece ao redor delas. Conversam sobre a escola dos filhos, o atendimento de saúde, o preço dos alimentos, a segurança do bairro e os problemas da cidade.

Política entra nessas conversas mesmo quando ninguém chama aquilo de política, por isso, compreender o voto feminino não significa simplesmente criar uma estratégia para conquistar um segmento eleitoral. Significa compreender uma parte fundamental de como a sociedade brasileira percebe o Estado e seus governantes.

*Renato Dorgan é cientista político e presidente do instituto Travessia. Faz pesquisas qualitativas para partidos, candidatos e mandatários em todas as regiões do país. Escreve a convite do Global South World Brasil.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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