A conta da covid grave em diabéticos pode durar meses
Principais pontos
- Estudo da USP acompanhou 870 pessoas hospitalizadas com covid moderada ou grave e encontrou recuperação mais difícil entre aquelas com diabetes.
- Sete meses após a internação, pacientes diabéticos apresentavam mais fragilidade, quedas e dificuldades de mobilidade, além de pior desempenho físico e cognitivo.
- Os pesquisadores alertam para a necessidade de acompanhamento prolongado desse grupo e agora analisam dados coletados três anos após a infecção.

Pessoas com diabetes podem carregar por mais tempo os efeitos de uma internação por covid, com maior dificuldade para recuperar a autonomia e a qualidade de vida. É o que indica um estudo da Universidade de São Paulo (USP) com 870 pacientes monitorados sete meses após a hospitalização e que ainda estão sendo acompanhados pelos pesquisadores.
Os resultados desse trabalho mostram que entre os pacientes diabéticos houve menor recuperação dos sintomas, maior fragilidade e incidência de quedas e pior desempenho físico e cognitivo. O estudo reforça, segundo os autores, a necessidade de acompanhamento mais cuidadoso e prolongado de pessoas com diabetes depois de formas mais graves da infecção.
O trabalho foi publicado na Scientific Reports, revista científica do grupo Nature. O artigo ainda passará pela edição final, mas a publicação disponibilizou uma versão para dar acesso aos resultados a outros pesquisadores.
Quem são os pacientes que fazem parte do estudo
Os pacientes faziam parte de um grupo de mais de três mil pessoas internadas no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP entre março e setembro de 2020, antes do início da vacinação contra a covid.
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Para essa pesquisa, foram avaliados 870 adultos que sobreviveram a quadros moderados ou graves: 320 tinham diabetes e 550 não tinham diagnóstico da doença. O acompanhamento ocorreu entre outubro de 2020 e março de 2021 e chegou a 7,1 meses depois da hospitalização.
Os participantes da pesquisa passaram por avaliação presencial, com questionários sobre sintomas e qualidade de vida, exame físico e exames laboratoriais. A análise também considerou a gravidade da internação, incluindo passagem pela UTI, uso de oxigênio, intubação e necessidade de diálise.
Ao final do período, 89,8% dos participantes com diabetes tinham se recuperado dos sintomas, ante 94,3% daqueles sem a doença. A relação entre diabetes e menor recuperação continuou aparecendo depois que os pesquisadores levaram em conta fatores como idade, sexo, circunferência abdominal e doença cardiovascular anterior à covid.
Dificuldade para recuperar a autonomia
Os resultados mais evidentes aparecem quando se observa como essas pessoas estavam vivendo meses depois da alta.
Entre os pacientes com diabetes, 21,1% relataram quedas, contra 11,1% entre aqueles sem a doença. O primeiro grupo já apresentava maior fragilidade anteriormente, mas foi o único em que os pesquisadores detectaram aumento significativo dessa condição depois da covid.
Também foram observadas mais dificuldades de mobilidade e para executar atividades cotidianas, além de dor ou desconforto. Em uma avaliação da capacidade funcional desenvolvida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), os participantes com diabetes tiveram resultados piores nos domínios físico e cognitivo.
A recuperação pode ter sido influenciada por uma combinação de fatores. Os pacientes com diabetes passaram, em mediana, 16 dias hospitalizados, três a mais do que os demais, e ficaram 11 dias na UTI, ante nove. Os autores apontam que períodos maiores de imobilização, com perda de massa muscular, podem contribuir para uma recuperação mais difícil.
Há ainda características próprias do diabetes. Inflamação sistêmica de baixo grau, resistência à insulina e alterações nos vasos sanguíneos são frequentes em pessoas com a doença e podem se somar aos efeitos provocados pela infecção. Seis meses depois, o grupo ainda apresentava alterações em diferentes indicadores laboratoriais, que os pesquisadores relacionam à maior frequência de complicações e ao pior estado geral de saúde.
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Efeitos cardiovasculares
Complicações cardiovasculares também estiveram entre os problemas associados ao diabetes durante o período de acompanhamento.
A análise inicial encontrou maior frequência de infarto, angina, miocardite e pericardite. Quando fatores que poderiam interferir nos resultados foram considerados, infarto e angina isoladamente deixaram de apresentar associação estatística com o diabetes, mas a associação com complicações cardiovasculares de maneira mais ampla permaneceu.
Ao reunir os resultados, os pesquisadores apontam como principais problemas entre os pacientes com diabetes as complicações cardiovasculares, fragilidade, dor, pior qualidade de vida e comprometimento dos desempenhos físico e cognitivo.
Casos de diabetes surgiram após a covid
O estudo identificou ainda diabetes em 40 pessoas que não tinham diagnóstico anterior, o equivalente a 7,3% dos participantes inicialmente classificados como não diabéticos. Os pesquisadores ressaltam que não é possível separar com segurança casos efetivamente surgidos depois da infecção daqueles em que a doença já estava em desenvolvimento e ainda não tinha sido diagnosticada.
A hipótese discutida pela equipe é que, em pessoas predispostas, o processo inflamatório provocado pela infecção possa acelerar ou revelar alterações metabólicas já em curso. Fatores associados ao período da pandemia, como sedentarismo, estresse, alimentação inadequada e obesidade, também podem ter contribuído.
Pesquisa acompanha efeitos por mais tempo
A investigação não terminou nessa avaliação. A equipe continua acompanhando os pacientes e agora analisa dados coletados três anos após a infecção, segundo a Agência Fapesp. A nova etapa poderá ajudar a esclarecer como evoluíram, ao longo dos anos, as alterações encontradas nos primeiros meses.
Os resultados publicados até agora devem ser entendidos dentro do contexto em que a pesquisa foi realizada: são pacientes que tiveram covid moderada ou grave, precisaram de hospitalização e adoeceram antes da vacinação. Os próprios autores ressaltam que as conclusões não podem ser estendidas a pessoas que tiveram formas leves ou assintomáticas da doença.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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