O futuro da saúde pública no Brasil
Uma comunidade para mães, famílias e cuidadores que acompanham a saúde no Brasil — com histórias para compartilhar e conversar no WhatsApp.
Epidemia de Aids pode retornar; Brasil teve aumento de novos casos em 15 anos
Principais pontos
- Relatório do Unaids alerta que cortes no financiamento e nos serviços de prevenção podem reverter avanços obtidos no combate ao HIV nas últimas décadas.
- Os registros de novas infecções caíram 42% no mundo entre 2010 e 2025, mas aumentaram em 21 países, entre eles o Brasil.
- O país ampliou em 41% o número de usuários da PrEP, profilaxia pré-exposição, e avalia incorporar ao SUS o cabotegravir, medicamento preventivo injetável aplicado a cada dois meses.

Um relatório divulgado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) mostra que há risco de a epidemia ressurgir. O estudo aponta que a redução do financiamento internacional e cortes nos serviços comunitários e de prevenção em vários países estão entre os fatores que podem levar a esse retorno.
Os dados foram apresentados na 26ª Conferência Internacional de Aids, que acontece no Rio de Janeiro até a sexta-feira, 31.
Segundo o relatório, em 2025, houve 1,2 milhão de novas infecções por HIV no mundo. Em 2010, esse número foi de 2,1 milhões. Isso representa uma queda de 42% no período.
Em relação às mortes relacionadas à Aids, entre 2010 e 2025, o número anual caiu de 1,3 milhão para 570 mil, uma redução de 57%.
RECOMMENDED FOR YOU

Segurança pública ganha protagonismo na largada das campanhas de Lula e Flávio
De acordo com o Unaids, registros de novos casos e de mortes relacionadas à Aids estão nos níveis mais baixos dos últimos 30 anos.
Mas a resposta ao avanço da síndrome não é igual na análise por países. Ou seja, os esforços para acabar com a Aids como ameaça à saúde pública até 2030 – meta do programa – estão sob risco, “a menos que a solidariedade global seja restaurada e as desigualdades sejam abordadas”, como ressalta o Unaids.
Os índices de novas infecções por HIV, no período entre 2010 e 2025, aumentaram em três regiões (América Latina, 25%; Oriente Médio e norte da África,78%; e Europa Oriental e Ásia Central, 17%).
Na relação dos países, sob essa análise, 21 países tiveram aumento superior a 20%. Entre eles, o Brasil.
Por outro lado, sete nações alcançaram uma redução de aproximadamente 80% nas novas infecções desde 2010. A meta é chegar a 90% em 2030. Os sete países são: Benin, Eswatini (antiga Suazilândia), Quênia, Lesoto, Nepal, Ruanda e Zimbábue.
Além disso, 11 nações atingiram as metas de tratamento “95-95-95”. O conceito significa: 95% das pessoas que vivem com HIV sabem que estão infectadas; 95% das pessoas diagnosticadas estão em tratamento com antirretrovirais; e 95% das pessoas em tratamento estão com a carga viral suprimida, condição que preserva a saúde e reduz o risco de transmissão a níveis próximos de zero.

Brasil amplia acesso à profilaxia preventiva
Apesar de estar na lista dos países que registraram aumento das novas infecções desde 2010, o Brasil tem números positivos em outra frente. O relatório indica que aumentou em 41% o número de pessoas que utilizaram PrEP (profilaxia pré-exposição) ao HIV pelo menos uma vez no ano, passando de 165 mil em 2024 para 233 mil em 2025. Esse crescimento é um exemplo de expansão da prevenção, em contraste com países que sofreram forte redução no acesso a esse tipo de profilaxia devido aos cortes de financiamento.
PrEP é um tratamento preventivo com medicamentos antirretrovirais destinado a pessoas sem HIV, mas com maior risco de infecção. Quando tomada corretamente, reduz de forma significativa a chance de adquirir o vírus.
RECOMMENDED FOR YOU

Mulheres podem comprar spray de pimenta para defesa pessoal; veja as regras
Cortes no financiamento ameaçam contenção de epidemia
Como o relatório demonstra, o financiamento internacional para o HIV proveniente de diversos países caiu mais de US$ 1,5 bilhão, passando de US$ 8,8 bilhões em 2024 para US$ 7,3 bilhões em 2025, uma redução de 18% e o menor nível registrado em quase duas décadas.
O documento ressalta que os serviços de prevenção ao HIV eram amplamente financiados por recursos internacionais. Na África Subsaariana, 83% do financiamento para prevenção veio de apoio externo.
Na ausência do apoio de países e organismos doadores e sem investimentos domésticos mais robustos, os serviços de prevenção e a prestação de serviços de HIV liderados por comunidades correm risco de colapso.
OMS: nove milhões de pessoas no mundo sem tratamento
No mesmo dia da apresentação do relatório, a OMS (Organização Mundial da Saúde) informou que, até o fim de 2025, cerca de 32 milhões de pessoas vivendo com HIV recebiam tratamento.
Mas nove milhões ainda não têm acesso à terapia preconizada pelas autoridades sanitárias. Outro ponto destacado pela OMS é que as novas infecções continuam aumentando em várias regiões, sobretudo entre populações-chave, como homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo, pessoas que usam drogas injetáveis, pessoas trans e pessoas privadas de liberdade.
Quais são os novos medicamentos de prevenção?
Apesar dos desafios, o Unaids afirma que a ciência oferece uma oportunidade inédita para melhorar o controle da epidemia. Começa a chegar ao mercado uma nova geração de medicamentos de longa duração, indicados para prevenir a infecção pelo HIV em pessoas que não têm o vírus, mas apresentam maior risco de exposição. Um deles é o cabotegravir, aplicado por injeção a cada dois meses e já recomendado pela OMS.
Outro é o lenacapavir, aplicado por injeção apenas duas vezes ao ano. Em estudos clínicos, ele demonstrou um nível de proteção contra o HIV comparável ao das vacinas, embora não funcione como uma vacina tradicional.
Para o programa da ONU, o principal desafio deixou de ser o desenvolvimento dessas tecnologias e passou a ser garantir sua produção em escala e o acesso equitativo, especialmente nos países de baixa e média renda.
RECOMMENDED FOR YOU

Pesquisa de polipílula para prevenir o AVC busca voluntários
No Brasil, uma dessas inovações pode chegar ao SUS. Na segunda-feira, 27, o Ministério da Saúde informou que enviará à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) o pedido para incluir o cabotegravir, da ViiV Healthcare, empresa controlada majoritariamente pela GSK. O governo teria acertado com o laboratório um “valor adequado” para a compra (os números não foram revelados).
Já o lenacapavir, da Gilead Sciences, ficou de fora. O medicamento custa cerca de US$ 28,2 mil por pessoa ao ano nos Estados Unidos — aproximadamente R$ 136 mil —, mas ainda não tem preço comercial oficial no país. Segundo o ministro Alexandre Padilha, a fabricante recusou a proposta do governo mesmo após o Brasil aceitar pagar até dez vezes o preço oferecido a nações como Indonésia e Tailândia.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
Se está acontecendo no Sul Global, está no nosso canal do WhatsApp.
Nós contamos as notícias que você precisa saber.
Inscreva-se agora