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Hábitos saudáveis podem prevenir até 45% do risco de demência, aponta OMS
Principais pontos
- Novas diretrizes da Organização Mundial da Saúde incluem, pela primeira vez, a redução da exposição à poluição do ar entre as estratégias para proteger a saúde do cérebro ao longo da vida.
- Estudo realizado em 11 países da América Latina, incluindo o Brasil, mostrou que um programa estruturado com exercícios, alimentação saudável, treino cognitivo e controle dos fatores cardiovasculares melhorou a cognição global de idosos sob risco de declínio cognitivo em cerca de 55% em relação ao grupo que recebeu apenas orientações gerais.
- As recomendações chegam em um momento de alerta para a região: em cinco países e territórios da América Latina e do Caribe, a proporção de idosos com demência aumentou de 10,6% para 16,9% em duas décadas, na contramão da tendência de queda observada nos Estados Unidos e em parte da Europa.

Praticar atividade física, manter uma alimentação equilibrada, controlar a pressão arterial e estimular o cérebro podem ajudar a prevenir ou adiar até 45% do risco de demência, segundo novas diretrizes divulgadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) nesta quarta-feira, 15. A recomendação ganha importância diante do avanço da doença, que afeta mais de 57 milhões de pessoas no mundo. O Alzheimer é a forma mais comum do problema e responde por aproximadamente 60% a 70% dos diagnósticos.
"Hoje sabemos muito mais do que antes sobre os fatores que aumentam o risco de demência, e estas diretrizes transformam esse conhecimento em ação", afirmou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. Segundo ele, os países passam a contar com recomendações baseadas em evidências que podem ser implementadas imediatamente para proteger a saúde cognitiva da população.
A atualização amplia e consolida orientações publicadas pela primeira vez em 2019. Além de reforçar recomendações já conhecidas, como parar de fumar, reduzir o consumo de álcool, praticar atividade física regularmente e manter uma alimentação saudável, a OMS passou a incluir a redução da exposição à poluição do ar como estratégia de prevenção.
O documento também destaca a importância do controle de hipertensão, diabetes e colesterol elevado, da estimulação cognitiva, da participação em atividades sociais e, quando indicado, do uso de aparelhos auditivos.
Em contrapartida, não recomenda o uso de suplementos vitamínicos ou de ômega-3 para prevenir a doença quando não houver deficiência comprovada, por falta de evidências científicas a respeito desse efeito.
Evidência prática
Uma pesquisa recente reforça as novas orientações da OMS. Publicado neste mês na revista científica The Lancet, uma das mais prestigiadas do mundo na área médica, o estudo Latam-Fingers acompanhou durante dois anos 1.065 pessoas entre 60 e 77 anos, em 11 países da América Latina, entre eles o Brasil, para avaliar se mudanças simultâneas no estilo de vida poderiam reduzir o declínio cognitivo. O trabalho contou com especialistas brasileiros, ligados à Universidade de São Paulo (USP) e à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Os participantes tinham fatores de risco cardiovasculares e desempenho cognitivo abaixo do esperado para a idade, mas ainda não apresentavam diagnóstico de demência. Eles foram divididos em dois grupos. Um recebeu apenas orientações gerais sobre saúde. O outro participou de um programa estruturado que combinava quatro frentes de intervenção.
A primeira envolvia atividade física supervisionada, com exercícios aeróbicos, musculação, treino de equilíbrio e coordenação realizados quatro vezes por semana. A segunda consistia em orientação nutricional baseada em uma dieta chamada Mind, que prioriza vegetais folhosos verdes, frutas vermelhas, grãos integrais, azeite de oliva, peixes, aves, feijões e oleaginosas, enquanto recomenda limitar carne vermelha, manteiga, queijo, frituras e doces.
É importante esclarecer que a dieta Mind (sigla em inglês para Intervenção Mediterrânea-DASH para Retardo Neurodegenerativo) é um padrão alimentar que combina elementos da dieta mediterrânea com os da dieta DASH, tradicionalmente usada para controlar a pressão arterial, mas voltado especificamente para a saúde do cérebro. O diferencial em relação a outras dietas saudáveis é o foco: ela foi criada e estudada com o objetivo específico de reduzir o risco de declínio cognitivo e Alzheimer, e não apenas para emagrecimento ou saúde cardiovascular em geral.
A terceira frente era formada por treinamento cognitivo computadorizado, com exercícios voltados para memória, atenção e raciocínio. Por fim, os participantes passaram por monitoramento contínuo dos fatores de risco cardiovasculares, como hipertensão, diabetes, colesterol elevado e excesso de peso.
Ao final dos dois anos, os participantes do programa estruturado apresentaram desempenho cognitivo global cerca de 55% melhor do que o observado entre aqueles que receberam apenas orientações gerais.
Os ganhos mais expressivos ocorreram na memória episódica — responsável por recordar acontecimentos e experiências pessoais —, seguidos pela função executiva, relacionada ao planejamento e à tomada de decisões, e pela velocidade de processamento das informações.
Outro resultado relevante foi a boa adesão ao programa. Cerca de 72% dos participantes conseguiram manter as mudanças propostas durante todo o estudo, e a taxa de abandono foi menor entre aqueles que receberam acompanhamento intensivo. Os pesquisadores também observaram que a intervenção foi segura: os eventos adversos mais comuns foram dores musculares e articulares associadas ao aumento da atividade física, sem registro de efeitos graves relacionados ao programa.
Prevenção ganha protagonismo
Para os pesquisadores, o principal mérito do Latam-Fingers foi demonstrar que um programa multidisciplinar de prevenção pode ser implementado com sucesso em diferentes contextos sociais e culturais da América Latina, região que reúne alta prevalência de fatores de risco para demência, como hipertensão, diabetes, obesidade e menor escolaridade. Os autores ressaltam que a estratégia não depende de medicamentos, mas da combinação coordenada de mudanças no estilo de vida e do acompanhamento contínuo dos participantes.
Os resultados dialogam diretamente com a nova estratégia da OMS. Sem uma cura amplamente disponível para a demência, a prevenção passa a ocupar papel central nas políticas de saúde pública. Segundo a organização, compreender os fatores de risco e agir precocemente pode ajudar as pessoas a preservar a autonomia, a qualidade de vida e a saúde cognitiva por mais tempo, além de reduzir o impacto econômico da doença, estimado em US$ 1,3 trilhão por ano em todo o mundo.
Avanço na América Latina
Outro estudo recente indicou um importante avanço da doença na América Latina e no Caribe. Publicada na segunda-feira, 13, na JAMA Neurology, uma das principais revistas científicas internacionais da área de neurologia, a pesquisa identificou que a prevalência de demência aumentou na região ao longo de duas décadas, na contramão da tendência observada nos Estados Unidos e em boa parte da Europa.
O trabalho foi conduzido por cientistas da Universidade Washington em St. Louis (EUA) e da Universidade de Newcastle (Reino Unido) e comparou duas grandes pesquisas domiciliares realizadas entre 2003 e 2006 e entre 2016 e 2020, nas quais foram avaliados 16.950 idosos com 65 anos ou mais. Cinco países e territórios foram escolhidos para esse estudo: México, Peru, Porto Rico, Cuba e República Dominicana.
Em vez de acompanhar continuamente o mesmo grupo por 20 anos, os cientistas repetiram o levantamento com a mesma metodologia, visitando as casas dos participantes para medir a prevalência da enfermidade. No conjunto dos cinco lugares analisados, a proporção de idosos com demência passou de 10,6% para 16,9%, o equivalente a um salto de um em cada dez para quase um em cada seis.
O aumento foi observado principalmente no México (de 9,6% para 14,5%), Peru (de 7,6% para 11,7%) e Porto Rico (de 10,7% para 15,7%), enquanto Cuba e República Dominicana mantiveram índices estáveis. Os autores apontam a necessidade de pesquisas semelhantes em países como Brasil, Argentina e Chile para verificar se a mesma tendência também ocorre nessas populações.

Cinco pilares para reduzir o risco de declínio cognitivo
Confira os hábitos adotados no estudo Latam-Fingers, que acompanhou 1.065 pessoas de 11 países, entre 60 e 77 anos, durante dois anos. Em conjunto, essas estratégias melhoraram o desempenho das funções mentais dos participantes.
1. Exercício físico regular
- Pelo menos 4 dias por semana, combinando exercício aeróbico (caminhada, corrida, bicicleta) com treino de força
- No estudo, os participantes faziam 35 minutos de exercício aeróbico + treino de resistência 2x/semana + exercícios de equilíbrio e coordenação
- O importante é a regularidade, não a intensidade extrema
2. Alimentação no padrão Mind
- Combinação da dieta mediterrânea com a chamada DASH, focada em saúde cerebral
- Priorizar: vegetais folhosos, outros vegetais, frutas vermelhas, grãos integrais, azeite de oliva, peixes, aves, feijões e oleaginosas
- Reduzir: carne vermelha, manteiga, queijo, doces e frituras
3. Treino cognitivo ativo
- Estimular o cérebro com atividades que exigem atenção, memória e raciocínio — jogos de estratégia, palavras cruzadas, aprender um idioma ou instrumento, jogos de tabuleiro
- No estudo, foram usados exercícios computadorizados 4x por semana, mas qualquer atividade que desafie a mente regularmente segue o mesmo princípio
4. Controle dos fatores de risco cardiovascular
- Monitorar pressão arterial, glicemia, colesterol e peso corporal regularmente
- O que é bom para o coração é bom para o cérebro — hipertensão, diabetes e obesidade estão entre os principais fatores de risco modificáveis para demência
5. Engajamento social
- Manter vínculos sociais ativos — encontros regulares com amigos, família, grupos comunitários ou atividades em grupo
- No estudo, os encontros em grupo (times de dez pessoas, com 38 reuniões ao longo de dois anos) fizeram parte central do protocolo, e não foram apenas um "extra"
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.