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Livro aborda a maternidade de mulheres negras escravizadas do Rio de Janeiro do século XIX
Principais pontos
- A historiadora Lorena Féres da Silva Telles, da Unifesp, analisa questões da maternidade e de sexualidade de mulheres negras escravizadas no Brasil imperial e de violências cometidas contra cativas na obra “Teresa Benguela e Felipa Crioula estavam grávidas: maternidade e escravidão no Rio de Janeiro (1830-1888)”.
- A pesquisa revela como a ocupação de escravizadas como amas de leite e a separação de mães e filhos marcaram a vida dessas mulheres, mesmo após a Lei do Ventre Livre, de 1871.
- Lançado primeiro em português e agora em inglês nos Estados Unidos, o livro amplia o acesso internacional a um estudo que insere a história brasileira no debate sobre escravidão, gênero e diáspora africana nas Américas.

O que acontecia com os bebês das mulheres negras escravizadas obrigadas a serem amas de leite das crianças nas casas senhoriais nos tempos do Brasil imperial? Como a Lei do Ventre Livre, promulgada no país em 1871, impactou a relação das mães e seus filhos, muitas vezes separados de modo ilegal? De que forma conhecimentos africanos sobre gravidez e parto resistiram à violência da escravidão? Essas são algumas das questões investigadas pela historiadora Lorena Féres da Silva Telles, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em sua pesquisa sobre mulheres africanas e afrodescendentes escravizadas no Rio de Janeiro do século XIX, baseada em milhares de documentos históricos, como teses de medicina, anúncios de jornais, registros de batismo, processos judiciais e até relatos de viajantes.
O estudo deu origem ao livro “Teresa Benguela e Felipa Crioula estavam grávidas: maternidade e escravidão no Rio de Janeiro (1830-1888)”, lançado em português em 2022 pela Editora Unifesp e agora publicado nos Estados Unidos pela University of Georgia Press com o título “Teresa Benguela and Felipa Crioula Were Pregnant: Motherhood and Slavery in Nineteenth-Century Rio de Janeiro”. O livro pode ser encontrado na Amazon. A edição original também está disponível no site da editora da Unifesp.
Mestre e doutora pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorado pela Universidade de Campinas (Unicamp) e pela University of Pittsburgh (EUA) e pesquisadora no Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Social do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), Lorena traça um forte e sensível retrato das mulheres escravizadas, que lutaram para manter suas culturas e visões de mundo com a ajuda de uma rede de parentes, entre elas suas próprias mães, comadres e parteiras africanas e afrodescendentes. Para dar a dimensão do tamanho dessa população, em 1849, o censo do Rio de Janeiro apontava que viviam na cidade 40 mil mulheres, metade delas eram africanas.
A autora também traz à luz histórias de mulheres como Teresa Benguela e Felipa Crioula sob a ótica da maternidade. Histórias de Teresas e Felipas, como consta no prefácio no livro, mostram que essas mulheres, além de cumprirem uma extensa e dolorosa jornada de trabalho doméstico ou no comércio, “atravessaram todas as desventuras da vida sob escravidão, da menarca à menopausa, como corpos e ventres que proviam a continuidade da escravidão”. O prefácio é assinado pela historiadora Maria Helena Pereira Toledo Machado, professora titular do departamento de história da USP, orientadora de Lorena no doutorado.
“Teresa Benguela and Felipa Crioula Were Pregnant: Motherhood and Slavery in Nineteenth-Century Rio de Janeiro” amplia o acesso internacional a uma pesquisa que dialoga com estudos sobre escravidão, gênero e diáspora africana nas Américas e ajuda a inserir a experiência brasileira em um debate em que prevalecem estudos sobre o sul dos Estados Unidos e o Caribe. Em entrevista ao Global South World Brasil, Lorena detalha as principais descobertas do trabalho e demonstra como as histórias dessas mulheres permitem compreender dimensões da escravidão que ainda hoje permanecem invisíveis.

Como surgiu seu interesse por esse tema? De que forma o assunto das mulheres africanas escravizadas no Rio de Janeiro chamou sua atenção pela maternidade e suas implicações?
A questão da maternidade entre mulheres escravizadas surgiu depois do meu mestrado. O livro é resultado da minha pesquisa de doutorado, com contribuições da minha pesquisa de pós-doutorado. Tenho estudado relações raciais, histórias de mulheres negras e trabalho doméstico em São Paulo, que foi o tema do meu mestrado. No doutorado, houve um interesse meu. Ao mesmo tempo, é campo de estudo do momento da minha orientadora, Maria Helena Pereira Toledo Machado. Quando fui procurá-la, pensava em um projeto sobre século XIX, sobre as mulheres na escravidão. Estava com a vontade de entender melhor as experiências das mulheres escravizadas. No meu mestrado, tratei das mulheres livres e libertas. Minha orientadora estava pesquisando amas de leite. Ela tinha escrito um artigo sobre mulheres ocupadas como amas de leite. Aí, comecei a minha tese, a minha pesquisa de doutorado falando sobre amas de leite e com foco na maternidade da mulher negra. Toda mulher que foi ama de leite teve seu filho. Engravidou, deu à luz e teve seu bebê. Comecei a pensar o destino desses filhos e como era se ocupar de duas crianças, sendo que uma delas era a criança negra dela e a outra era o bebê senhorial, isso dentro das relações escravistas. Fui atrás de muitas fontes. Pesquisei, sobretudo, teses de medicina, revistas médicas, casos clínicos, muitos anúncios de jornal envolvendo aluguel, fuga e venda de mulheres escravizadas. Fui juntando muito material, assentos (registros) de batismo – era o momento dos batizados; as mães escravizadas tinham também as madrinhas e os padrinhos dos filhos, que eram redes sociais e de parentesco muito importantes. Quando eu vi, tinha fôlego para pensar a maternidade de uma maneira mais ampla. E também, na historiografia que eu estava pesquisando – sobre mulheres negras e maternidade e escravidão no sul dos Estados Unidos e na Jamaica – estavam questões sobre os partos, as parteiras negras e as práticas dos médicos. Aí, minha tese acabou se debruçando sobre a gravidez dessas mulheres no Rio de Janeiro. Então, passei a pensar relações afetivas, relações sexuais, autonomia e estupro e coerção sexual. Pensando na relação com os senhores, quem era o pai desses bebês, como foi o processo da gravidez, que conhecimentos elas tinham sobre gravidez, como contavam as luas para saber o tempo da menstruação. Tudo isso eu fui encontrando indícios nos casos clínicos dos médicos, quando eles atendiam as mulheres africanas e afrodescendentes. Depois, parti para a análise dos partos, onde elas davam à luz, quais eram as práticas. Pesquisei as diferentes parteiras, os diferentes perfis de parteiras no Rio de Janeiro: havia parteiras brancas francesas, brancas brasileiras, portuguesas, mulheres africanas, mulheres negras nascidas no Brasil – chamadas de criolas –, afrodescendentes. E aí eu pesquisei as práticas e as especificidades das parteiras africanas e afrodescendentes. Em outro capítulo, enfoquei as práticas dos médicos. A faculdade de medicina surge nesse formato, de faculdade, em 1832 na cidade do Rio de Janeiro e em Salvador. Ali, havia muitas teses no final do século XIX, na década de 80, que trazia ideias racistas sobre os corpos e os partos das mulheres negras, dentro também de uma linha do racismo científico do período na Europa e nos Estados Unidos. Pesquisei as práticas dos médicos, o uso de instrumentos obstétricos e a violência obstétrica. Existem alguns casos clínicos de jovens mulheres afrodescendentes, escravizadas que tinham a participação de vários médicos no momento do parto. Havia diversas situações opressivas para essas mulheres. Depois, pesquisei a amamentação. Enfoquei as amas de leite e os impactos da ocupação de ama de leite no Rio de Janeiro. Existia um mercado de aluguel de amas de leite muito amplo no século XIX inteiro. E também dei foco à questão da separação dos bebês e as famílias locatárias, que alugavam. As mulheres brancas não amamentavam seus próprios filhos. As que não tinham escravizadas nutrizes como suas propriedades alugavam mulheres de outros senhores. Cobrava-se mais caro pela mulher sem o próprio filho, pela mulher negra cativa sem o filho. Então, havia situações de separações, de abandonos de bebês. E tensões também dessas mulheres em ter de cuidar do bebê da senhora, se ela amamentasse a criança senhorial e não da locatária. Eram tensões de ter dois bebês. Muitas vezes o próprio filho era preterido. E tinha uma alta mortalidade das crianças negras. Também tratei das práticas da amamentação, a amamentação estendida de muitas mulheres africanas, centro-africanas, principalmente da região de Congo, Angola e Moçambique. Elas amarravam os bebês às costas. Davam de mamar, sobretudo, as lavadeiras, as quitandeiras que ficavam mais tempo distantes dos senhores. Elas podiam amamentar os filhos com mais frequência do que as amas de leite, do que as mucamas ou do que as mulheres que trabalhavam muito próximas dos senhores. No capítulo sobre a criação dos filhos, abordo a relação delas com as crianças pequenas. A criação era comunitária. Tinha a participação das suas comadres, das redes de parentesco, muitas vezes das mães delas, das avós. Muitas vezes, elas também participavam dos partos e das dificuldades, até a Lei do Ventre Livre, em que as mães e as crianças poderiam ser separadas até 1869. Tem uma lei de 1869 que proíbe separação de famílias e de mãe e filho até 15 anos. Havia as práticas de separações das crianças e a das vendas conjuntas. Muitas vezes essas mulheres eram vendidas com os filhos pequenos. Também há a questão dos infanticídios, quando, em situações de muita tensão, de ameaças senhoriais, de muita violência senhorial, elas tiravam a vida de seus filhos, das crianças pequenas. Elas tentavam também o suicídio e muitas delas sobreviveram. Enfim, são situações muito dramáticas e muito trágicas. Uma questão importante é que o Rio de Janeiro foi um porto que recebia até 1831, no Valongo, muitas africanas e africanos. A escravidão urbana nas grandes cidades sempre precisou muito dessas mulheres no trabalho doméstico ou no ganho de rua, como quitandeiras. Então, as mulheres eram muito numerosas no Rio de Janeiro, que era corte imperial também. Só para se ter noção, em 1849, o censo, apesar de seus problemas de imprecisões, registrou na cidade e nas franjas suburbanas aproximadamente 40 mil mulheres. Metade delas eram africanas. Essa demografia do tráfico contava com mulheres de Congo-Angola, dos portos de Benguela, de Luanda, de Cabinda, de Ambris, que eram mulheres também falantes das línguas Congo, ambundo, quicongo. Tive interesse em compreender as visões de mundo, a cultura e as reelaborações dessas mulheres na diáspora. Elas chegavam meninas, jovenzinhas, e reelaboraram, dentro das circunstâncias e das limitações da escravização, em diferentes momentos históricos, as suas práticas culturais de criação de filhos, o uso de amuletos para proteger os bebês, as redes de parentesco para evitar que os filhos fossem separados delas.
Havia boas fontes por aqui ou foi necessário fazer uma pesquisa fora do Brasil para completar seu trabalho?
Trabalhei com muitas teses de medicina. No século XIX, os estudantes de medicina tinham de fazer um trabalho de conclusão de curso, que chamavam tese de doutorado – mas não era o nosso doutorado. Um dos principais temas abordados era a questão da amamentação e da higiene infantil, dentro de um discurso que colocava as mulheres brancas em um novo papel social voltado para a função de mãe, como as responsáveis pelos cuidados dos filhos e pelo futuro da nação. Ao mesmo tempo, eram trabalhos que faziam críticas às amas de leite negras africanas e descendentes. Eram trabalhos que acabavam justificando, de alguma maneira, o uso de amas de leite, dizendo que as mulheres brancas eram frágeis, fracas, que o leite delas era pouco nutritivo. Então, eles justificavam, de algum modo, a prática escravista de alugar ou de usar mulheres mães escravizadas como amas de leite. Também pesquisei teses sobre menstruação e sobre aborto. Usei muitas fontes da medicina de casos clínicos, de atendimento dos médicos, geralmente da classe senhorial mais abastada – eles chamavam os médicos em último caso, diante de complicações na gestação ou no parto das mulheres cativas. Eles nem sempre conseguiam dar conta dos problemas no parto porque a cesariana só vai ser uma cirurgia segura no comecinho do século XX. Então, eles iam com fórceps e, muitas vezes, causavam lacerações nas mulheres e nas crianças. A gente vê, por meio dessas teses e dos casos clínicos, as práticas das parteiras a partir de uma análise das entrelinhas, das críticas que faziam a elas. Também usei muito jornais através da hemeroteca digital, que é uma base de dados da Biblioteca Nacional, com muitos jornais do século XIX digitalizados. Ali, encontrei muitos anúncios de fuga, de venda, de aluguel de mulheres grávidas ou com bebês e crianças pequenas. Também pesquisei literatura de viajantes estrangeiros que estiveram no Brasil, literatura de memórias de fazendeiras, de mulheres brancas escravistas, que escreviam sobre o cotidiano dentro de um discurso de paternalismo, de uma escravidão benigna, cheio de distorções, e também por meio de fotografias e pinturas. Eu investi num conjunto de fontes bem amplo para conseguir encontrar indícios desses aspectos das vidas das mulheres escravizadas, que não ficaram nos registros ou que eram pouco registrados nas fontes ligadas às instituições ou aos interesses das classes senhoriais brancas. Com relação a fontes estrangeiras, usei alguns manuais de medicina franceses. Pesquisei tudo isso através de buscas em bibliotecas digitais. Também em alguns livros de viajantes ingleses que estiveram na África Central e na África Ocidental. Fiz uma viagem durante o doutorado para Edimburgo, na Escócia, onde havia uma professora que pesquisava sobre mulheres escravizadas no Caribe britânico, na Jamaica. Ali, na biblioteca, foi muito importante o acesso que tive à bibliografia sobre parteiras e partos em algumas regiões da África. Então, a maior parte das pesquisas eu fiz no Brasil mesmo.
Que aspectos podem ser ressaltados das mulheres escravizadas no Rio de Janeiro antes e depois da Lei do Ventre Livre, em relação à sexualidade, maternidade, criação de filhos, morte de mães e filhos?
A Lei do Ventre Livre foi promulgada em 1871, no final do século XIX. Teve um impacto importante do ponto de vista do direito das mulheres escravizadas se manterem junto a seus filhos até os 8 anos, pelo menos. Porém, também foi muito conservadora porque a lei obrigava os “ingênuos”, como eram chamadas as crianças nascidas de ventre livre, a 21 anos de trabalho para os senhores. Aí, eles seriam libertos. Então, do ponto de vista do direito à maternidade, essas mulheres disputaram muito a lei, sobretudo quando a classe senhorial praticava escravização ilegal, ao tentar vender em separado mãe e crianças, principalmente na Bahia e no Nordeste. Algumas delas foram vendidas com os filhos, ou seja, respeitando a Lei do Ventre Livre. Muitas vezes, ela foi burlada, separando mães e crianças. Então, um dos impactos mais importantes foi a questão da manutenção dos vínculos maternos com as crianças. A Lei do Ventre Livre vai retroceder uma lei de 1869. Nessa, ficava estabelecida a proibição da venda em separado de mães e filhos de até 15 anos de idade. A do Ventre Livre, baixou essa idade para 12 anos. Ou seja, ela protegeu também a relação das mães com filhos nascidos antes da Lei do Ventre Livre, ou seja, para os filhos a quem legavam a sua condição escravizada. A Lei do Ventre Livre também teve impactos muito específicos com relação aos contextos, se era urbano ou se era rural. No caso da cidade do Rio de Janeiro, em que havia um mercado de aluguel de amas de leite bastante importante, muitos dos bebês ingênuos foram abandonados para que a mãe fosse alugada como ama de leite por um preço mais alto. Muitos desses senhores, sobretudo os das elites e das classes médias, não tinham interesse em criar essas crianças porque elas não seriam escravizadas. Então, a lei teve um impacto no mercado de amas de leite, principalmente no Rio de Janeiro. E houve um impacto com relação à sobrevivência dessas crianças. Muitas foram mortas, abandonadas nas ruas e nas rodas dos expostos, em que a Igreja Católica acolhia bebês abandonados. Havia projetos de lei que eram mais arrojados, vamos dizer assim. Eles previam uma libertação imediata, mas o que acabou vencendo foram os interesses senhoriais de postergar ao máximo a exploração dos filhos das mulheres escravizadas.
No livro, você destacou alguns nomes. Que material encontrou para falar delas? Como foi o resgate das histórias dessas mulheres?
Essa escolha dependeu muito da disponibilidade das fontes históricas. Por exemplo, um anúncio de fuga muitas vezes é um texto curto de um senhor ou de uma senhora que descreve os laços sociais, as roupas, o olhar senhorial sobre o físico, sobre o jeito [da pessoa escravizada]. No anúncio de busca dessas mulheres aparecem muitos detalhes das vidas delas. Alguns foram muito ricos nesse sentido, ao mostrar as relações que estavam indo encontrar com a mãe. Muitas dessas mulheres escravizadas tinham relações com mães que eram libertas ou escravizadas, fugindo junto com companheiros. Teresa Benguela era uma mulher comum, africana, embarcada no porto angolano de Benguela. Eu a escolhi, por exemplo, porque tem indícios muito interessantes em muitos desses anúncios que falam de traços da maternidade. A que eu pude aprofundar mais foi a Geralda, que era uma mulher ocupada como mucama. Ela foi vendida do Rio Grande do Sul. Pesquisei através da Gazeta dos Tribunais, que era uma revista que transcrevia partes de processo criminal. Os processos adentram mais na vida das pessoas envolvidas. Trabalhei também com a Marcelina, uma mulher que foi presa acusada de ter matado a locatária. Pelos testemunhos do processo é possível ver as tensões cotidianas, as relações de opressão e também os limites dessa mulher. Foi uma situação de luta corporal, em que ela é acusada de ter sufocado a senhora, a locatária, na verdade. A Ângela Maria é uma mulher que matou os filhos em um contexto de muitas ameaças da classe senhorial. Ela tentou se matar depois. Foi um infanticídio seguido de tentativa de suicídio. Ela tenta se matar afogada na praia do Flamengo. E assim, um envolvimento muito afetivo com essas pessoas, com essas mulheres do passado. Eu me esforcei em escrever [sobre elas]. O texto é historiográfico. Foi escrito dentro de uma pesquisa acadêmica, mas escrevi de maneira a respeitá-las, a tratá-las com dignidade e olhá-las com delicadeza dentro das relações sociais em que elas foram tão objetificadas, como foi a escravidão negra nas Américas. Tive um envolvimento profundo, tive momentos de tristeza, de identificação também com os indícios do que elas viveram, do que elas passaram. Como falar sobre temas delicados também, como falar sobre estupros, abusos sexuais de meninas de 12 anos, 11 anos, 10 anos? Isso aparecia também em algumas fontes da medicina. São casos de muito sofrimento. Então, foi desafiador falar sobre temas que são delicados e que tocam mulheres negras e as descendentes dessas africanas e afrodescendentes do século XIX. Essas são realidades, legados ainda da sociedade escravista.
Que indícios encontrou de Teresa Benguela [líder quilombola] e de Felipa Crioula [mulher escravizada que vivia no Rio de Janeiro no fim do século XIX]?
Encontrei indícios de Teresa Benguela em um anúncio de fuga. Dizia que ela fugia grávida e com uma criança pequena, um filho dela. Essa fuga falava da fuga dela da casa da senhora e do senhor e buscando dar à luz longe deles, indo para uma casa de uma comadre, de uma pessoa da comunidade afrodescendente, que era muito populosa na época em que ela viveu. Felipa Crioula também aparece em um anúncio de fuga, mas já no final do século XIX, em torno de 1872. É no contexto do Ventre Livre, em que as relações escravistas estão sendo colocadas em xeque pelos próprios escravizados. Nesse anúncio de fuga, parece que ela está grávida, quase a ponto de dar à luz. Ela é vista por pessoas conhecidas da casa senhorial, trocando de roupa e de nome. E com pessoas que conhecia. Ou seja, ela mobilizou uma rede de solidariedade. Ela tinha outros filhos também. Achei em um jornal que ela entrou com uma ação de liberdade, um processo em que os escravizados acionavam a Justiça para se alforriarem, para fazer a auto compra.

De que modo sua pesquisa se conecta a outros trabalhos relativos às populações escravizadas que saíram da África e foram levadas às Américas?
Minha pesquisa se insere dentro da tradição da história social, mais especificamente da história social das mulheres e da história social da escravidão. É uma linha historiográfica que tenta recuperar, analisar e compreender o mundo social, econômico e político a partir das perspectivas desses grupos sociais; no caso, de subalternizados como foram as africanas, africanos e seus descendentes que foram atravessados pela escravização. Acredito que o meu trabalho dialoga muito com trabalhos sobre mulheres negras e maternidade no sul dos Estados Unidos e no Caribe. A gente poderia falar de uma perspectiva Atlântica. Busquei também o que havia de comum, o que aproximou as vivências dessas mulheres nesses diferentes países – alguns eram independentes, outros eram colônias. Entendo meu trabalho como diálogo com estudos da diáspora africana e das reelaborações das culturas, dos modos de viver e de se relacionar, e dos cultos e da espiritualidade dessas pessoas, sobretudo meninas e mulheres africanas. É também uma história de sobrevivência, de muita luta, e dores e lamentos, mas também de vitórias. Eu tive um mestre, Flávio dos Santos Gomes, professor na UFRJ, que foi muito importante na minha pesquisa de doutorado. Ele é um grande historiador da escravidão, dos quilombos e é um homem negro. Ele me dizia: as pessoas escravizadas são pressionadas pela escravidão, mas não são reduzidas a ela. Então, esse olhar da história social e o olhar que eu dirigi para essas mulheres, quando interpretei as fontes históricas, foi para inserir num contexto maior as suas vivências, as suas relações sociais. Escrevi com esse objetivo de olhá-las para além da condição de escravidão. Olhei também suas outras identidades, os seus outros pertencimentos, as suas relações familiares, suas relações amorosas e sexuais, suas relações com seus filhos, com a comadre, e, enfim, com os senhores, que eram muito tensas.
O interesse por uma edição em inglês foi atendendo a pedidos de outros pesquisadores e universidades?
O caminho para a publicação desse livro se deu sobretudo quando eu recebi um prêmio pela minha tese de doutorado, como a melhor tese pela Lasa, a Latin American Studies Association. É um prêmio considerado nas universidades norte-americanas. Uma colega me sugeriu que eu entrasse em contato com essa editora. Daí teve todo um processo de pareceristas, de pessoas que leram a obra em português, que avaliaram e fizeram sugestões. Fiz algumas mudanças e aí o livro foi traduzido. De uns anos para cá, tem sido criadas redes de pesquisadoras e pesquisadores, de historiadoras e historiadores que abordam mulheres africanas e afrodescendentes numa perspectiva atlântica. Então, tem vários grupos de pesquisa que estão se conectando, como historiadores que trabalham com gênero e escravidão nas Américas. Por uma questão linguística, o português não é lido pelos pesquisadores anglófonos. Acho que há interesse pelas universidades do sul dos Estados Unidos, como a da Geórgia. Essa universidade tem uma série de publicações que se chama “Gender and Slavery”, sobre gênero e escravidão. A edição é uma possibilidade para o público anglófono, sobretudo para se aproximarem dos estudos sobre a escravidão no Brasil, é muito pouco conhecida por eles – apesar de a nossa escravidão ter sido a mais longa e nós termos sido o país que mais recebeu africanas e africanos entre todas as Américas.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.