Polarização e força regional aumentam chances de segundo turno 'antecipado' nos estados
Principais pontos
- Pesquisas mostram que ao menos 10 estados podem resolver eleições para governador ainda em primeiro turno.
- Na maior parte dos casos, a dinâmica de polarização entre o presidente Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) restringiu as disputas regonais a apenas duas candidaturas competitivas.
- Para cientistas políticas ouvidas pelo GSW Brasil, o cenário pode gerar desmobilização eleitoral e preocupa, em especial, a campanha petista.

As rodadas mais recentes das pesquisas de intenção de voto para os governos estaduais retratam um cenário em que ao menos 10 unidades federativas poderão eleger ou reeleger seus chefes de Executivo ainda em primeiro turno.
Distribuída entre favoritos à reeleição, aliados e opositores do presidente Lula (PT), a lista inclui seis dos 10 maiores colégios eleitorais brasileiros, o que poderá fazer grande parte do país não voltar às urnas após 4 de outubro -- exceto se houver segundo turno no pleito presidencial, hoje projetado entre o petista e Flávio Bolsonaro (PL).
Segundo turno antecipado
Para fazer esse cálculo, o GSW Brasil levou em conta os levantamentos em que o primeiro colocado registrou mais intenções de voto do que a soma total de seus concorrentes nas edições mais recentes de Datafolha, Paraná Pesquisas e Quaest.
Como a eleição se define em votos válidos, valem apenas aqueles recebidos pelos candidatos disponíveis nas urnas -- excluindo brancos, nulos e abstenções. Quem conseguir 50% mais um dos votos deste montante, portanto, está eleito.
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Por ordem de densidade eleitoral, veja a lista das disputas que, conforme este critério, seriam concluídas em turno único:
- São Paulo: Tarcísio de Freitas (Republicanos), com 40% das intenções de voto;
- Rio de Janeiro: Eduardo Paes (PSD), 37%;
- Bahia: ACM Neto (União Brasil), 48%;
- Ceará: Ciro Gomes (PSDB), 52%;
- Pernambuco: Raquel Lyra (PSD), 44%;
- Santa Catarina: Jorginho Mello (PL), 50%;
- Maranhão: Eduardo Braide (PSD), 44%;
- Piauí: Rafael Fonteles (PT), 56%;
- Mato Grosso do Sul: Eduardo Riedel (PP), 40%;
- Amapá: Dr. Furlan (PSD), 55%.
Na maior parte dos casos, tratam-se de eleições estaduais resumidas a duas candidaturas competitivas, o que delimita o teto dos votos válidos no primeiro turno a uma distribuição que reproduz a dinâmica de "confronto direto" do segundo.
Em São Paulo, onde há 34,1 milhões de eleitores, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o amplo favoritismo do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) afugentou opositores e, para não ficar sem palanque no maior colégio eleitoral do país, Lula insistiu para que o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) fosse candidato.
Mesmo com desempenho similar ao que registrava a esta altura da eleição passada, quando chegou ao segundo turno (27% na Quaest), o petista enfrenta um cenário mais complexo pela ausência de um terceiro concorrente competitivo -- na ocasião, os 18,40% de Rodrigo Garcia (então no PSDB) evitaram uma decisão antecipada.
Essa dinâmica se reproduz no Ceará com uma inversão. No estado, o governador Elmano de Freitas (PT) dá palanque ao presidente, mas não concorre em condição de favoritismo -- registrou 33% das intenções de voto no Datafolha. Desafiando o petismo em um de seus redutos, o ex-governador Ciro Gomes (PSDB) tomou a dianteira da corrida.
"Há uma dinâmica distinta de polarização, em que o candidato à reeleição depende diretamente da associação a Lula, enquanto seu opositor tem capital político próprio", disse ao GSW Brasil Monalisa Torres, professora de ciência política da Uece (Universidade Estadual do Ceará).

De olho na Presidência
A preocupação com o desempenho no estado impacta na estratégia da campanha presidencial. Embora o tucano seja um crítico conhecido do bolsonarismo e não declare voto em Flávio -- mesmo com apoio do PL ao governo --, a hipótese de vitória de Ciro em primeiro turno coloca em perspectiva a chance de que menos eleitores estejam nas urnas em 25 de outubro, data do segundo turno, para escolher apenas o presidente.
A abstenção seria especialmente danosa para Lula, candidato de 69,97% dos cearenses no segundo turno de 2022 contra Jair Bolsonaro (PL) -- nacionalmente, foram 50,90% a favor do petista. "Os números acendem um alerta no PT, visto que esse movimento pode reduzir a votação do presidente no estado. Em uma eleição que tende a ser apertada e resolvida pelo voto dos indecisos, a redução pode fazer diferença", analisou Torres.
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Para Luciana Santana, professora de ciência política da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), as resoluções em primeiro turno nos estados tendem a gerar desmobilização eleitoral para o segundo turno do pleito presidencial. "Mais pessoas buscam as urnas e estruturas partidárias se mantém mobilizadas quando ainda há disputa local", afirmou ao GSW Brasil.
O cálculo que pode ser capitalizado por Flávio em estados como Ceará e Bahia -- onde o governador Jerônimo Rodrigues (PT) também enfrenta desvantagem nas pesquisas --, redutos do petismo, no entanto, pode igualmente beneficiar a campanha do atual chefe do Planalto em outras regiões.
No Rio de Janeiro, berço do bolsonarismo e onde Lula teve 43,5% dos votos no segundo turno de 2022, o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), aliado do petista, tem condições de derrotar Douglas Ruas (PL), apoiado pelo presidenciável da direita, em votação única.

O cenário é distinto daquele apresentado na última eleição, quando a aposta de Lula em Marcelo Freixo (então no PSB) naufragou ainda em primeiro turno contra o bolsonarista Cláudio Castro (PL), reeleito na ocasião. Os números da corrida presidencial no estado reforçam esta percepção -- em empate técnico, Flávio teve 31% e Lula, 29% na edição mais recente da Quaest.
Pelo mesmo objetivo, o petista tem mantido certa distância de João Campos (PSB), a quem apoia ao governo de Pernambuco, diante dos 44% de intenções de voto de Raquel Lyra. Além de não estar no palanque de Flávio, a governadora tem um histórico de declarações simpáticas ao petista.
Neste caso, é estratégico não "queimar uma ponte" em cenário tão disputado. "Vários estados têm lideranças regionais capazes de atravessar essa clivagem da dinâmica nacional. Essa capacidade tem a ver, no caso de governadores com mandato, com a própria aprovação de suas gestões", observou Santana.
Para a professora, os danos para Lula são menores na definição antecipada de estados como Pernambuco, onde "perder governos [com aliados] em primeiro turno não significa necessariamente perder votos". "Há uma preocupação muito maior com um caso como São Paulo, onde a possível conclusão em primeiro turno 'libera' Tarcísio para dedicar-se à campanha de Flávio", ponderou.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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