Sem Cleitinho, disputa pelo governo de MG segue marcada pela incerteza
Principais pontos
- Líder nas pesquisas, senador do Republicanos deixou disputa oficialmente nesta segunda-feira.
- Com a ausência de Cleitinho, palanque de Flávio Bolsonaro (PL) segue indefinido no estado. Presidente Lula (PT) demorou, mas apostou no petista Patrus Ananias como 'solução caseira'.
- Articulações dão tom da importância do pleito onde, historicamente, presidenciável que vence sobe a rampa do Palácio do Planalto.

A dois meses do primeiro turno das eleições de 2026, a incerteza ainda marca os rumos da disputa pelo governo de Minas Gerais e ressoa na campanha presidencial.
Líder nas pesquisas, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) não concorrerá e mantém o palanque de Flávio Bolsonaro (PL) indefinido, enquanto o presidente Lula (PT) apostou em um velho conhecido, o deputado Patrus Ananias (PT), como 'plano C' para ter apoio no estado.
Neste texto, o Global South World Brasil contextualiza o cenário eleitoral e as articulações em curso no estado onde, há oito décadas -- à exceção de Getúlio Vargas, em 1950 --, o presidenciável que mais tem votos sobe a rampa do Palácio do Planalto.
Favorito descartado
As singularidades mineiras não se encerram no caráter "pendular" do estado para o histórico das eleições presidenciais: trata-se da única disputa por um governo em que o favorito não estará nas urnas em 4 de outubro.
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O senador Cleitinho Azevedo lidera os principais levantamentos desde a pré-campanha e repetiu a posição na edição mais recente da Quaest, divulgada em 28 de julho, com 35% das intenções de voto na principal simulação de primeiro turno.
Foi apenas em 30 de julho, no entanto, que o parlamentar tornou público seu desejo de disputar o Palácio Tiradentes. "Não é que só eu quero ser candidato a governador, não, quase 50% da população mineira que quer que eu venha o candidato a governador, as pesquisas mostram isso", afirmou Cleitinho a jornalistas em Brasília.
Até então, o parlamentar era vago sobre a pretensão e sugeriu deixar a definição para 5 de agosto para "deixar esse povo mais doido". Na declaração em que mudou a rota, atribuiu a hesitação ao luto pela morte do irmão, Matheus Azevedo, vítima de leucemia.
Naquele momento, Cleitinho declarou guerra ao próprio partido, cujo presidente nacional, o deputado federal Marcos Pereira (SP), afirmou que o correligionário havia "perdido o timing" da disputa no momento em que faltou à convenção estadual da legenda.
Inegavelmente popular, o senador é considerado um personagem imprevisível pelos pares. No cargo desde 2023, fez declarações e deu votos que desagradaram petistas, bolsonaristas e o "centrão", disse não ser amigo de Pereira e detestar "qualquer coisa que envolva o partido" ao jornal O Globo.
Comandado por políticos experientes, o Republicanos é uma clássica força do "centrão" alinhada aos ritos tradicionais de poder. A soma de incertezas oferecida por Cleitinho, afinal, rifou suas chances de ser candidato. O anúncio foi feito nesta segunda-feira, 3.
Predador à espreita
A saída tardia do favorito desorganizou o bloco da centro-direita em Minas. Partido de Flávio Bolsonaro e do deputado mais votado do estado, Nikolas Ferreira, o PL sinalizou que aguardaria a decisão de Cleitinho para definir seu apoio ao governo.
Quem decidiu sair da posição de espera foi a federação formada por PP e União Brasil. Pré-candidato ao Senado desde 2025, o ex-secretário de Governo Marcelo Aro (PP) rompeu com o governador Mateus Simões (PSD), com quem formaria chapa, e passou a articular a própria candidatura ao Executivo.
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Líder da "família Aro", grupo que reúne representantes na Assembleia Legislativa e na Câmara de Belo Horizonte, o político tem um perfil de liderança pouco midiática, mas muito poderosa. Ao romper com Simões, desocupou centenas de cargos comissionados do governo estadual e desmobilizou dezenas de prefeitos que poderiam apoiar o mandatário à reeleição.
Com performance tímida nas pesquisas para o Senado, onde ainda era listado, Aro se fia na força dos palanques regionais e na sinalização de que, sem Cleitinho no páreo e mais confiável do que o senador, poderá agregar o bloco formado pela própria federação, PL Republicanos, Podemos e Solidariedade -- que já integram seu grupo -- para garantir as maiores fatias de fundo eleitoral e tempo de propaganda na disputa.
As chances disso ocorrer ganham força. Confirmando-se o movimento, Aro garante ao palanque de Flávio, ao mesmo tempo, maior competitividade do que os nomes ventilados para concorrer pelo PL -- o ex-prefeito de Betim Vittorio Medioli e o ex-presidente da Fiemg Flávio Roscoe --, capacidade de dialogar com um eleitorado irrestrito ao bolsonarismo e espaço a Domingos Sávio (PL), pré-candidato ao Senado, na chapa.
Solução caseira - e tardia
A indefinição no palanque de Flávio não se repetiu com Lula pelo intervalo de alguns dias. Em 27 de julho, após longa negociação e seguidas negativas de nomes mais desejados pelo presidente e dirigentes partidários, o deputado federal Patrus Ananias foi ungido candidato ao governo pelo PT.
Prefeito de Belo Horizonte de 1993 a 1997, ministro de Lula em seus primeiros mandatos e militante histórico do partido, o parlamentar nem sequer era mencionado nas discussões para a disputa alguns meses atrás -- mas cedeu ao pedido do mandatário.
Chamado repetidas vezes de "futuro governador" pelo chefe do Planalto, o senador Rodrigo Pacheco (PSB) declinou da empreitada no final de maio e, preterido pelo presidente para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal desde a aposentadoria de Luís Roberto Barroso -- mesmo após a histórica rejeição de Jorge Messias --, decidiu abandonar a vida pública.
Lula e os dirigentes do PT mineiro ainda ouviram "não" do ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT), que optou por manter-se neutro em relação à disputa presidencial, e da ex-prefeita de Contagem Marília Campos (PT), bem posicionada nas pesquisas para o Senado e defensora de primeira hora de que os petistas apoiassem uma candidatura de outra sigla ao cargo.
Estigmatizado pela gestão do ex-governador Fernando Pimentel (2015 a 2018), o partido sofre forte rejeição em eleições majoritárias no estado e, com a definição tardia, reduziu a perspectiva de alargar alianças.
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Preferido para ocupar a vice de Patrus, o PSB realizou sua convenção estadual no último final de semana sem formalizar apoio à candidatura petista -- a aliança é rejeitada por ex-prefeitos que concorrerão à Câmara dos Deputados pela sigla -- ou incluir o ex-procurador Jarbas Soares, que chegou a sinalizar a intenção de concorrer ao governo, na chapa, que segue restrita à federação formada por PT, PCdoB e PV.

Rotas paralelas
Entre os nomes que foram cotados para dar palanque a Lula no estado, Alexandre Kalil e Gabriel Azevedo (MDB), ex-presidente da Câmara Municipal da capital, concorrerão ao Palácio Tiradentes tanto contra o candidato endossado pelo presidente quanto contra aquele que estará com Flávio.
No caso do pedetista, que apoiou o chefe do Planalto nas eleições de 2022 -- mas não voltou a falar com ele desde então --, as tentativas de aliança encampadas pelo presidente nacional do PT, Edinho Silva, e pela própria Marília Campos esbarraram nos desgastes da relação ao longo dos últimos anos e numa indisposição da própria direção local da sigla, que passou a trabalhar por candidatura própria após a recusa de Pacheco.
Já Azevedo, cotado em um período mais breve, chegou a fazer gestos públicos em direção ao PT, como a publicação de um vídeo em que disse "nunca ter sido bolsonarista" e uma agenda pública em que chamou Marília de "senadora", mas viu as chances de aliança naufragarem por um histórico de proximidade com legendas de centro-direita e apoio ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).
Os dilemas do incumbente
Fora das equações que consideram lulismo e bolsonarismo, o governador Mateus Simões (PSD) fiou sua corrida pela renovação do mandato no período de oito meses que teria à frente do Executivo e no discurso de continuidade dos dois mandatos de Romeu Zema (Novo), de quem foi vice.
Por lealdade ao ex-governador, o incumbente afiançou apoio a sua candidatura à Presidência da República, o que minou as chances de negociação com PL -- que condicionava a aliança à garantia de palanque para Flávio -- e, de quebra, transformou pontos de desgaste na gestão do aliado em vidraças para sua própria campanha.
Com espaço restrito na direita e em baixo patamar de intenção de voto -- oscilou entre 6% e 9% na última pesquisa Quaest --, perdeu apoio de PP e União Brasil após a chegada do senador Carlos Viana, candidato à reeleição, a seu partido -- o parlamentar é desafeto de Marcelo Aro, que ocuparia uma das vagas da chapa ao Senado.
Para tornar-se mais conhecido, tem apostado em agendas pelo interior do estado e em ações de gestão alinhadas a bandeiras da direita radical, como o endurecimento das ações policiais e a defesa de escolas cívico-militares.
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O movimento não deve surtir o efeito esperado, visto que, em anotações de Flávio sobre articulações estaduais, Simões era identificado como um palanque que "puxava para baixo" sua campanha em Minas.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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