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Vacinação infantil melhora no mundo e no Brasil; mas há índices abaixo da meta, caso do sarampo

Principais pontos

  • A cobertura vacinal infantil avançou em 2025 no mundo, segundo relatório da OMS e do Unicef, mas 13,5 milhões de bebês ainda não receberam a primeira dose da vacina contra difteria, tétano e coqueluche.
  • No Brasil, o número de crianças sem essa dose inicial caiu de 255 mil, em 2024, para 50 mil neste ano, uma redução de 80,4%.
  • Mesmo com a melhora, o país ainda não atingiu a meta para algumas doenças: 90% das crianças receberam a primeira dose contra o sarampo, abaixo dos 95% recomendados pela OMS.
Bebê de dois meses recebe a vacina oral contra a poliomielite na Argélia.
Bebê de dois meses recebe a vacina oral contra a poliomielite na Argélia.
Source: OMS/ Khadidja Markemal
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A cobertura vacinal infantil está avançando no mundo inteiro. Em 2025, o número global de crianças “zero-dose” — aquelas que não receberam sequer a primeira dose da DTP (contra difteria, tétano e coqueluche) no primeiro ano de vida — caiu para 13,5 milhões, uma redução de 5,3% sobre o ano anterior. Os dados são de um relatório assinado em conjunto pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância).

As entidades divulgaram nesta quarta-feira, 15, o documento “Estimativas OMS-Unicef de Cobertura Vacinal Nacional” (Wuenic), segundo o qual, no ano passado, 90% dos bebês no mundo (cerca de 116 milhões de crianças) receberam pelo menos uma dose da DTP. Além disso, 85% – ou 110 milhões – completaram o esquema de três doses.

Esses indicadores aumentaram um ponto percentual em relação a 2024, porém a cobertura global permanece um ponto abaixo do nível de 2019, mantendo-se dentro da mesma faixa estreita desde 2009.

Em relação às crianças “zero-dose”, o relatório aponta que, embora tenha crescido o número de meninas e meninos protegidos com a primeira dose da DTP, muitas não concluem o calendário vacinal. Esse é um desafio importante, já que o abandono da vacinação se mantém em níveis altos.

A DTP é a referência internacional quando se trata de analisar o quadro de “zero-dose” porque essa vacina faz parte dos calendários nacionais de praticamente todos os países. Ela é aplicada muito cedo, ainda no primeiro ano de vida. Quem não recebeu nem mesmo a primeira dose (DTP1), provavelmente também deixou de ser protegida com várias outras vacinas do programa infantil.

O relatório estima que, globalmente, 7,3 milhões de bebês tenham recebido a primeira dose da DTP, mas abandonado o calendário vacinal antes de receber a primeira dose da vacina contra o sarampo. Essa taxa de abandono contribuiu para a estagnação da cobertura contra o sarampo: 84% das crianças receberam a primeira dose (MCV1) e 77% receberam a segunda dose (MCV2). Ambos os índices estão muito abaixo do limite de 95% necessário para prevenir surtos desse vírus altamente contagioso. Como consequência, 57 países registraram surtos grandes ou disruptivos de sarampo em 2025.

“Governos e profissionais de saúde ajudaram as taxas globais de vacinação a se recuperarem após a forte queda observada durante a pandemia de Covid-19”, declarou Catherine Russell, diretora executiva do Unicef. “Mas milhões de crianças vulneráveis continuam desprotegidas devido a conflitos, deslocamentos forçados e pobreza. Nenhuma criança deveria sofrer de uma doença que uma simples vacina pode prevenir”, salientou.

Trinta países melhoraram suas taxas em seis anos

Dados de 195 países mostram que 100 países mantiveram cobertura de pelo menos 90% com três doses da vacina DTP desde 2019, com pouco progresso na ampliação desse grupo. Entre os países que estavam abaixo desse patamar em 2019, 30 conseguiram melhorar suas taxas ao longo dos últimos seis anos, mostra o relatório. No entanto, 65 países permaneceram estagnados ou retrocederam, incluindo 13 nações afetadas por conflitos ou em situação de vulnerabilidade.

Em comparação com os níveis de 2019, as regiões das Américas e do Sudeste Asiático se recuperaram e apresentaram evolução positiva. A última é a que tem, atualmente, o melhor desempenho. 

Cobertura vacinal infantil avança no Brasil

Segundo o Wuenic, o Brasil vem melhorando a cobertura vacinal ano após ano, ao mesmo tempo em que reduz o número de crianças zero-dose. Em 2023, havia 360 mil meninas e meninos que não receberam a primeira dose de DTP no país. Esse número caiu para 255 mil em 2024 (queda de 29,2%) e para 50 mil em 2025 (diminuição de 80,4%).

Por aqui, a DTP é administrada por meio da vacina pentavalente (proteção contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e Haemophilus influenzae tipo b, causadora de meningite e outras infecções graves).

De acordo com as entidades, a melhora no quadro vacinal de 2024 para 2025 no Brasil é explicada principalmente por dois fatores: o aumento da cobertura e os aprimoramentos no sistema público de registro e divulgação sobre vacinação do país.

Embora a recuperação continue, segundo as estimativas relativas ao Brasil, algumas vacinas registraram queda de cobertura entre 2024 e 2025. E há números do ano passado que estão abaixo das metas necessárias para controlar a circulação de doenças.

Vale explicar que a meta do Ministério da Saúde para a maioria das vacinas do calendário infantil é de 95%. Esse percentual é o padrão técnico mínimo recomendado para atingir a "imunidade de rebanho" e evitar surtos de males altamente contagiosos, como sarampo e poliomielite. Para vacinas como a BCG, o índice recomendado fica em 90%.

Os dados sobre a vacina de sarampo no Brasil demonstram o desafio da imunização no país. Na primeira dose, a cobertura caiu de 91% em 2019 para 79% em 2020 e 73% em 2021. Depois, subiu para 81% em 2022, 90% em 2023 e 96% em 2024. Em 2025, porém, recuou para 90%.

Na segunda dose contra o sarampo, a recuperação foi mais lenta. A cobertura chegou a apenas 44% em 2020 e a 46% em 2021, avançou para 58% em 2022, 69% em 2023 e 81% em 2024. Em 2025, caiu para 76%. Isso significa que quase uma em cada quatro crianças que deveriam receber a segunda dose não estava imunizada.

A diferença entre as duas doses é relevante porque o esquema completo contra o sarampo exige duas aplicações. Uma cobertura elevada apenas na primeira dose não garante proteção adequada da população.

Um dos maiores avanços ocorreu na primeira dose da vacina inativada contra a poliomielite. A cobertura, que estava em 73% em 2021, passou para 81% em 2022, 85% em 2023, 88% em 2024 e 98% em 2025.

O resultado do esquema completo, porém, foi menor. A proporção de crianças que recebeu todas as doses recomendadas subiu de 68% em 2021 para 75% em 2022 e 85% em 2023. Depois, baixou para 82% em 2024. No ano passado, voltou a subir e atingiu 86%.

Os números mostram uma diferença entre iniciar e concluir a vacinação contra a poliomielite: em 2025, 98% receberam a primeira dose contra a pólio, mas apenas 86% completaram a série primária. A distância de 12 pontos percentuais indica abandono ou atraso entre uma aplicação e outra.

A vacina BCG, aplicada principalmente para prevenir formas graves de tuberculose em crianças, saiu de 69% em 2021 para 88% em 2022, 87% em 2023 e 99% em 2024. Em 2025, ficou em 97%, um dos índices mais elevados do levantamento.

A cobertura contra o rotavírus, que ajuda a prevenir casos graves de diarreia, subiu de 69% em 2021 para 77% em 2022, 87% em 2023 e 90% em 2024. Em 2025, caiu para 88%.

A vacina pneumocócica, utilizada contra infecções como pneumonia, meningite e otite causadas por bactérias pneumocócicas, apresentou uma das recuperações mais acentuadas nos anos mais recentes. A cobertura passou de 69% em 2021 para 72% em 2022, 86% em 2023 e 93% em 2024. Em 2025, recuou para 88%.

A terceira dose contra Haemophilus influenzae tipo B, bactéria que pode provocar meningite e outras infecções graves, seguiu trajetória semelhante: 68% em 2021, 77% em 2022, 86% em 2023, 90% em 2024 e 86% em 2025.

A terceira dose contra hepatite B também passou de 68% em 2021 para 77% em 2022, 85% em 2023 e 90% em 2024, antes de cair para 86% em 2025.

Desafios no mundo

Por trás dessas estimativas existem ameaças persistentes que geram grande variabilidade e instabilidade na cobertura vacinal entre os países. Mais da metade de todas as crianças zero-dose vive em contextos frágeis ou afetados por conflitos, embora esses locais abriguem apenas cerca de um terço da população infantil mundial. Nesses cenários, os programas de imunização frequentemente enfrentam desafios relacionados à instabilidade política, insegurança ou subfinanciamento crônico.

A OMS e a Unicef destacaram o quadro da Síria que, em apenas um ano, perdeu 6 pontos percentuais na cobertura da primeira dose da DTP e 12 pontos na primeira dose da vacina contra o sarampo.

Por outro lado, o Sudão registrou o maior avanço global em um único país no último ano, aumentando a cobertura da DTP1 em 35 pontos percentuais e a cobertura da MCV1 (primeira dose contra o sarampo) em 22 pontos, demonstrando o que é possível alcançar resultados quando o acesso aos serviços melhora, mesmo em meio a conflitos em andamento.

Nos países de renda média e alta, onde as vacinas são totalmente acessíveis, a cobertura vem diminuindo em razão de mudanças no compromisso político, desafios estruturais ou aumento da hesitação vacinal. A cobertura da DTP1 na África do Sul, por exemplo, caiu 20 pontos percentuais desde 2019 e continuou diminuindo em 2025.

Ao longo dos últimos 25 anos, segundo o relatório, investimentos sustentados de governos e parceiros, compromissos das comunidades, fortalecimento dos programas e ampla confiança pública reduziram em 40% o número anual de crianças zero-dose.

No entanto, as bases que possibilitaram esse progresso estão sob forte pressão. O impacto total dos cortes no financiamento internacional para a saúde anunciados nos últimos dois anos ainda não está refletido nas estimativas da OMS e do Unicef. Contudo, os sistemas de dados necessários para monitorar esses impactos e evitar retrocessos já demonstram sinais de enfraquecimento.

Segundo os dados, apenas 18 pesquisas nacionais de imunização foram realizadas e enviadas neste ciclo, em comparação com 50 em 2024 e uma média de 33 por ano entre 2015 e 2019. As agências alertam que a redução dos investimentos nos sistemas de dados necessários para identificar e alcançar crianças não vacinadas resultará em surtos e mortes que poderiam ser evitados.

Para alterar o cenário, OMS e Unicef recomendam a governos e parceiros: o fortalecimento da imunização em contextos frágeis e afetados por conflitos, o combate a informações falsas e conteúdos enganosos sobre saúde, como as fake news contra vacinas; o aumento do financiamento para programas de vacinação; e o investimento em sistemas de dados e vigilância epidemiológica mais robustos.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.